Prefeita de Rancho Queimado não comprova eficácia de tratamento precoce

COMPARTILHE

Compartilhar no facebook
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no twitter
Compartilhar no telegram
Compartilhar no whatsapp

É falso que o município de Rancho Queimado, em Santa Catarina, não tenha nenhum registro de óbito por covid-19. A afirmação enganosa foi dita por um homem em vídeo que circula nas redes sociais para promover o tratamento precoce contra o novo coronavírus, grupo de medicamentos que já foi considerado ineficaz pela comunidade científica mundial. 

Ele fala que as informações foram passadas pela prefeita da cidade, Cleci Veronezi (MDB), durante entrevista para o programa Conexão ND, da emissora NDTV, afiliada da Record News em Santa Catarina. Apesar disso, a própria prefeita diz que haviam sido registrados dois óbitos pela doença — dos quais um usou o tratamento precoce e o outro, não.

A checagem das informações inverídicas foi feita pelo Estadão! 

Dados da secretaria estadual de saúde mostram que em 2 de março, data em que a entrevista foi ao ar, Rancho Queimado na verdade tinha três óbitos por covid-19, dentre 274 casos confirmados. No momento de publicação desta checagem, 10 de março, o município ainda registrava três mortes, mas os casos confirmados haviam subido para 281. A cidade possui 2.887 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2020, mas a prefeita disse na entrevista que eram 5 mil os habitantes.

Na entrevista, Veronezi explica que o kit de tratamento consiste de azitromicina, ivermectina, hidroxicloroquina e zinco e que 1,7 mil pessoas receberam as medicações. Indagada sobre o posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) em negar a eficácia da cloroquina para prevenir e tratar a covid-19, Veronezi disse que “a ciência do dia-a-dia comprova que deu certo”.

A prefeita, no entanto, não detalha se as 1,7 mil pessoas que foram atendidas com o “tratamento precoce” efetivamente fizeram uso dos remédios, nem se todos esses pacientes haviam sido diagnosticados com a covid-19 ou se haviam sido expostos ao vírus. 

Não há como concluir, portanto, que o tratamento “deu certo”.

Se formos comparar, a população de Rio do Sul, com 72.200 habitantes, registrou  44 mortes por Covid (0,06%). Mas a população de Rancho Queimado é de 2.800 e teve  três mortes por Covid, o que perfaz (0,12%).

Portanto, percentualmente morreu o dobro de pessoas em Rancho Queimado. Com o mesmo percentual em Rio do Sul já teriam morrido 86 pessoas.  Rio do Sul nunca fez o tratamento precoce, enaltecido na matéria e não recomendado pela ciência, OMS, por comprovadamente ser ineficaz.

Em 2020, a OMS realizou um estudo com mais de 11 mil voluntários em 30 países para avaliar o uso da hidroxicloroquina e outros remédios no tratamento da covid-19. Após seis meses de análises, a organização identificou que o remédio tinha pouco ou nenhum impacto no número de mortos pela doença. Este ano, a OMS estendeu sua conclusão para o uso preventivo do medicamento, e recomendou que ele “deixe de ser prioridade de estudos”. 

Sua nova conclusão foi baseada com estudos que envolveram mais de seis mil voluntários.Nenhum dos outros medicamentos e substâncias disponíveis no kit de Rancho Queimado possuem eficácia comprovada contra a covid-19, seja para tratamento ou para a prevenção. As agências regulatórias dos EUA (FDA) e do Brasil (Anvisa), por exemplo, alertam que é preciso mais estudos antes de permitir a prescrição off label desses medicamentos, isto é, o uso para outras doenças que não aquelas descritas nas bulas.

Atualmente o único meio para conter a pandemia é a vacinação.  A chocagem do Estadão foi feita com informações científicas e dados oficiais, sobre o novo coronavírus e a Covid-19 disponíveis no dia 10 de março de 2021.

Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490.

 

Comentários