Com a ‘solução’ de pavimentação parcial nos dois lados do rio – que o governo encaminhou após suposta quebra de palavra de parceria do prefeito taioense com o gestor mirindocense -, políticos ignoram que também há Margem Esquerda no território de Mirim Doce e Margem Direita no mapa de Taió. Não contemplados com as obras previstas, esses trechos de continuidade das duas estradas permanecem condenados à poeira e à lama. Sem falar que a travessia sobre o rio, que uniria os dois pedaços do plano de asfaltamento, ainda é apenas promessa.
Asfalto somente em um pedaço da Margem Direita e uma parte da Margem Esquerda – e não em toda a extensão de uma ou das duas vias. Após a reviravolta, o antigo sonho da ligação asfáltica entre Taió e Mirim Doce, no Alto Vale do Itajaí (SC), virá na forma de revestimento parcial de trechos em cada lado do rio, ambos recebendo conexão no “futuro” – através de uma ponte da qual não se tem sequer detalhes.
Segundo o governo estadual, a obra no território taioense prevê 6,7 km de extensão terminando na divisa com Mirim Doce – pela Margem Esquerda. O trajeto também vai contemplar indústrias, setor que teria pressionado o município a transferir o plano da obra para aquele lado do curso d´água.
Já a pavimentação asfáltica em Mirim Doce, com 4,47 km, interrompe na divisa com Taió – pela Margem Direita.
Os dois convênios foram publicados no Diário Oficial do Estado (DOE/SC) nos dias 24 (Taió) e 28 (Mirim Doce) de junho de 2022.
Na prática, a mesma extensão de asfalto a ser construído de cada lado do rio deixará trechos de estradas condenadas à poeira e à lama nas margens opostas de ambos os municípios.
Não é preciso ter uma bola de cristal para imaginar o grau de insatisfação de usuários dos trajetos não contemplados.
Custos e prazos
Sem contrapartida das prefeituras, os acordos preveem a liberação de recursos totais de R$ 28.553.287,70.
O convênio firmado entre o secretário de Estado da Infraestrutura e Mobilidade (SIE), Thiago Augusto Vieira, e o prefeito de Taió, Horst Alexandre Purnhagen (MDB), cita a liberação do montante de R$ 18.615.103,69 para pavimentação do trecho taioense pela Margem Esquerda. Em 2022, o repasse apontado tem limite de R$ 3 milhões. Em 2023, o valor é de R$ 15.615.103,69, conforme o Plano de Trabalho. O prazo de execução expira em 6 de junho de 2024, mas poderá ser prorrogado.

Já o convênio de Mirim Doce foi estabelecido entre Vieira e o prefeito Bernardo Peron (PSD), o “Tio Bê”. O recurso para a pavimentação da parte da Margem Direita – correspondente à rodovia “TAO-045” – é no montante de R$ 9.938.184,01. O prazo de execução do projeto termina em 31 de dezembro de 2023, mas também poderá ser prorrogado mediante termo aditivo, informa o documento.



Portanto, o trecho mirindocense poderia ficar pronto dentro de um ano e meio. O de Taió dentro de quase dois anos.
E a ponte?
A “boa nova” da pavimentação parcial – anunciada pelo secretário Thiago Vieira – dependerá também da conexão dos dois trechos de asfalto conveniados, ou seja, exigirá uma ponte entre as margens Direita e Esquerda.
Sem definir nenhuma data ou orçamento, Vieira abordou a questão dessa travessia como algo para o “futuro”.
A promessa – que se soma a muitas outras de asfaltamento feitas por políticos ao longo de quase meio século – veio em um vídeo publicado recentemente na rede social do secretário. Inclusive, do jeito como ele falou na gravação, pode-se achar até que as duas margens seriam totalmente asfaltadas. Sonho que não ocorrerá.
Reviravolta
A decisão de pavimentar um pedaço de estrada de cada lado do rio é supostamente uma consequência de uma quebra de palavra atribuída ao prefeito de Taió.
Horst Alexandre Purnhagen apoiou o asfaltamento ao longo de toda a Margem Direita e chegou a receber sinal verde do governador Carlos Moisés (Republicanos).
Porém, o administrador municipal teria voltado atrás na sua promessa de parceria com o prefeito de Mirim Doce, Bernardo Peron.
Ao desistir de fazer o asfalto entre as duas cidades pela Margem Esquerda utilizando verbas de ambos os executivos, teria puxado a obra com recursos estaduais para este lado do rio no seu município.
A manobra também atingiu o presidente da Câmara de Vereadores de Taió. William Henrique Noriller (PSD) já comemorava ganho político com o aval da pavimentação de Mirim Doce para Taió pela Direita, mas acabou tendo que engolir o amargo fracasso diante do governo do estado e seus representantes.

Perguntas
A obra do tipo ‘um pouco de um lado, um pouco de outro’ ainda deixa muitas dúvidas.
Quando seria esse “futuro” previsto para a construção de uma travessia, como diz o secretário Thiago Vieira às vésperas de mais uma eleição? E se, por demora, os dois trechos ficarem sem conexão depois do asfalto pronto?
Com o dinheiro que será necessário para “construir uma ponte de conexão sobre o rio” não daria para fazer a pavimentação completa nas margens Direita e Esquerda?
Como irão reagir os agricultores que não foram contemplados com o asfalto prometido inicialmente pela Margem Direita?
Qual será a reação de quem foi prejudicado por causa da suposta quebra de palavra de parceria do gestor de Taió, de asfaltamento total pela Margem Esquerda?
Considerando o volume de impostos recolhidos dos contribuintes, a solução apresentada é a melhor oferta que podia ter sido dada a taioenses e mirindocenses?
Resta saber ainda se os cronogramas existentes serão cumpridos. E mais: torcer para que a qualidade da pavimentação asfáltica não termine em fiasco igual ao que está exigindo retrabalho e novos gastos na ligação entre Mirim Doce e a BR-470.
Por fim, fica também o alerta aos 18 vereadores dos dois municípios: manter os olhos da fiscalização bem abertos.

(SIE: Termo de Convênio no2022tR001309; Processo SGPE SCC 3266/2022 | SIE: Termo de
Convênio no2022TR000315; Processo SGPE SCC 00020440/2021)
Fotomontagem: Alto Vale Agora