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AGRONÔMICA: Pedindo indenização de R$ 1 milhão, MP envia à Justiça ação contra prefeitura e fábrica de rações

Fumaça, mau cheiro e ruído começaram a infernizar moradores de área residencial há quase quatro anos, desde que IMA concedeu licença ambiental e prefeito César Cunha (PSDB) autorizou instalação da indústria em zona urbana proibida.

Por Redação

18 de março de 2023

às 07:04

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Com valor pesado que visa condenação solidária, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) pede, na Justiça, indenização de R$ 1 milhão por danos morais coletivos a ser paga pela Puraforte Indústria e Comércio de Rações Ltda e pela prefeitura de Agronômica, no Alto Vale do Itajaí (SC).

A ação civil pública ambiental, movida pela 4ª Promotoria de Justiça da Comarca de Rio do Sul e ajuizada no início deste mês, denuncia poluições sonora e atmosférica provocadas pela fábrica, além da conivência do prefeito César Luiz Cunha (PSDB) em permitir a atividade industrial de porte incompatível para o lugar.  

Em plena área residencial do bairro Centro, a fumaça da chaminé, o mau cheiro dos produtos e o barulho de máquinas transformaram a vida dos moradores em um verdadeiro ‘inferno’.

Ação civil contra fábrica reproduz imagem encaminhada por morador à promotoria. (Foto: Valmir Coradini/MPSC)

Irregular

De acordo com o promotor Adalberto Exterkötter, a indústria nem sequer poderia ter sido instalada no local.

O galpão, na Rua Leopoldo da Cunha, está situado em uma área classificada no Plano Diretor Participativo Municipal como “ZU 3”, ou “Zona Urbana 3”.

Segundo esta legislação das diretrizes urbanísticas de Agronômica, a região destina-se ao uso residencial – o que proíbe quaisquer atividades industriais de grande porte ali.

Inclusive, “o Tribunal de Justiça de Santa Catarina [TJSC] também já se manifestou pelo encerramento de atividades em zoneamento proibido”, lembra a ação.

Tabela do Plano Diretor revela que fábrica não pode funcionar no bairro Centro, diz MP. (Captura de Tela: MPSC)
Com área útil de 1 hectare (10.000 m²), empresa enquadra-se em “porte grande”. (Captura de Tela: MPSC)

Apesar disso, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) concedeu a licença ambiental de operação. A prefeitura, por sua vez, vem renovando os alvarás de localização e funcionamento da fábrica de rações, constituída em 25 de junho de 2019.

Portanto, como se constata através da promotoria, as autoridades não se importaram em pisar nas normas – e, tampouco, de imputar sofrimento “gerando grande perturbação à vizinhança”, além de favorecer “risco ambiental” e possíveis ameaças à saúde da comunidade.

César Cunha, prefeito de Agronômica. (Captura de Tela: Reprodução/YouTube)

“Insuportável”: olhos, nariz, ouvidos…

Os moradores próximos e também do entorno relataram, de modo incansável, que são frequentemente importunados pela situação. Pedindo socorro, diversas mensagens de e-mail foram enviadas diretamente à 4ª Promotoria de Justiça. Os prints constam na ação civil pública e expõem a gravidade do problema.

“Aqui não dá pra aguentar o mau cheiro quase todos os dias (…), o barulho é insuportável”, relata Valmir Coradini, que reside na rua onde funciona a indústria de rações.

Maria Eunice Batista, que mora na mesma via, desabafa: “Por favor, precisa ser tomada providência urgente. Além do mau cheiro, tem também o barulho que incomoda bastante, 12 horas por dia”.

Diego Parma reclama: “Está tirando o sossego, incomodando os moradores e desvalorizando os imóveis”.

“Se não bastasse a fumaça que sai da chaminé, eles ateiam fogo em lixo ao lado da empresa”, denuncia Ângela Burato Seide, moradora do bairro Laudelino Cunha.

Já Ana Paula Corrêa Wendhausen, incomodada durante a construção de uma casa em um loteamento próximo, escreve: “Peço que, se possível, seja averiguada a regularidade da emissão destes resíduos, sobretudo pelo fato de a indústria se encontrar em área predominantemente residencial e no centro da cidade”.

“Foi conversado com os responsáveis que não resolveram o problema”, revela a queixa de Moacir Parma.

Alvará da prefeitura autoriza funcionamento da Puraforte em área proibida, denuncia MP. (Captura de Tela: MPSC)

Evasivas

Travada desde outubro de 2021 a partir de uma notícia de fato que evoluiu para um inquérito civil em março do ano passado, a prefeitura de Agronômica e a Puraforte bem que procuraram se esquivar da batalha jurídica – até mesmo “de forma ardilosa e no intuito de induzir a erro” a promotoria de Justiça. No entanto, sem sucesso e causando espanto ao MP.

César Cunha fez ‘malabarismos’. “Em última tentativa esdrúxula de justificar o inconcebível”, o prefeito chegou a alegar que duas fábricas também já funcionaram no local. Uma delas, na década de 1980 (Meridional Tabacos). A outra, nos anos 2000 (INTAB – Indústria de Tabacos e Agropecuária Ltda). Mas, na avaliação do MP, ele ‘escorregou’ nessa explicação, pois, apesar de a edificação ser a mesma, o novo Plano Diretor mudou as regras de zoneamento a partir de 2008; legislação que Cunha estaria atropelando.

“Chega a ser curioso, quando não espantoso, constatar a que extremo o município Requerido está seguindo para dar ar de legalidade àquilo que está notoriamente ilegal, com o fito de beneficiar uma única empresa indevidamente instalada no local, que, de acordo com o relato dos vizinhos, está causando diversos transtornos à região”, diz trecho da ação civil pública.

Quanto à fábrica, ela mesma acabou se entregando em agosto do ano passado. Enquanto procurava refutar a acusação de poluir o ar, encaminhou ao MP uma espécie de ‘documento de confissão’, um termo de compromisso, no qual o sócio-administrador Charles Will garantiu que iria “instalar o equipamento LAVADOR DE GASES (…) no prazo de seis meses”, conforme projeto anexado ao comunicado.

Documento demonstra que indústria admite emitir mau cheiro. (Captura de Tela: MPSC)

Portanto, “afirmou ter conhecimento do odor forte emitido pela empresa”, pontuou Adalberto Exterkötter“, uma vez que o próprio dono deixou escapar que estava “melhorando seu setor produtivo e fazendo adequações para diminuir a emissão de odor na fábrica”.

Por fim, o Ministério Público crava: “das 6 (seis) zonas que compõem o Município de Agronômica, em 4 (quatro) delas a empresa Requerida poderia ser instalada sem violar o Plano Diretor Participativo Municipal, mas, a empresa Requerida optou, e foi permitido pela municipalidade, por sediar-se em zoneamento proibido para tanto, gerando diversos transtornos aos munícipes do entorno”.

Charles Will, sócio-administrador. (Foto: Redes Sociais)

“Condenar…”

A ação civil é dirigida ao juízo da Vara da Fazenda Pública, Acidentes do Trabalho e Registros Públicos da Comarca de Rio do Sul.

Um dos pleitos é o deferimento da produção de prova pericial, para que um laudo técnico ateste a poluição atmosférica e sonora.

Com pedido de tutela provisória de urgência, a promotoria também quer impedir o prefeito de promulgar legislação que altere o Plano Diretor – conforme teria chegado a circular nos bastidores –, para benefício exclusivo da fábrica de rações, considerada “de baixo potencial de degradação ambiental, mas de porte grande”.

Já a lista dos pedidos de condenação é rigorosa: anular o ato administrativo que concedeu o alvará de localização e funcionamento à indústria; proibir a aprovação de futuros licenciamentos que violem o Plano Diretor; fixar multa diária em caso de descumprimento de decisão judicial; e impor indenização pelo passivo ambiental promovido, em favor do Fundo para Reconstituição dos Bens Lesados (FRBL) e ao Fundo do Meio Ambiente, em valor não inferior a R$ 1 milhão, a ser pago, de forma solidária, pela Puraforte e pela prefeitura de Agronômica.

Entretanto, o documento termina dizendo: “o Ministério Público informa que possui interesse na conciliação”.

Polêmicas à parte, agora, resta aguardar a sentença judicial.

Sede da Puraforte – no bairro Centro, em Agronômica. (Foto: Alto Vale Agora/Arquivo)

Perguntas

Afinal, por que os vereadores da Câmara Municipal – situada na mesma rua, perto da empresa –, e igualmente sujeitos à fumaça e ao mau cheiro não exerceram seu papel de fiscalizadores e protetores da comunidade a tempo?

Por que o executivo insiste em manter, de modo irregular, a fábrica no local? Seria medo de perder receita se ela fechar – ou o real motivo poderia ser alguma dívida política?

Para encerrar, é importante dizer: se houver condenação, parte do dinheiro deverá sair dos cofres públicos – e não do bolso do prefeito, denunciado como favorecedor da irregularidade pelo MP. Já pensou?

Democraticamente, o espaço no portal Alto Vale Agora permanece aberto para eventuais manifestações dos citados nesta reportagem.

Localizada na mesma rua, Câmara de Vereadores fica bem perto da indústria de rações. (Foto: Divulgação)
Imagem interna da fábrica que foi denunciada à Justica. (Captura de Tela: YouTube/Arquivo)

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À esquerda, prefeitura. À direita, vista da fábrica de rações. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Reprodução)

(Notícia de Fato n. 01.2021.00028376-4; Inquérito Civil n. 06.2022.00001528-6; Ação Civil Pública n. 5002402-55.2023.8.24.0054 | SIG n. 08.2023.00069648-8/Processo Judicial | Alvará de Localização e Funcionamento n. 305/2023 | Plano Diretor Participativo Municipal – Lei complementar n. 42, de 12 de dezembro de 2008)

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