VÍDEO revela o esforço da paciente para se locomover…
Com os joelhos gravemente comprometidos, certo dia, Iolanda Pfau Neumann, de 72 anos, tropeçou ao entrar em casa e, na queda, fraturou o fêmur direito.
Mesmo sob possível risco de embolia, durante uma semana em 2021, a viúva ficou refém de um leito no Hospital e Maternidade Dona Lisette, em Taió, cidade onde mora, na região do Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina.

Arqueamento das articulações de Iolanda, popular “joelho de vento”. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Arquivo Pessoal)
Foi preciso um apelo de familiares seguido da interferência da promotoria pública local.
Somente assim, a paciente conseguiu uma vaga para ser transferida ao Regional, em Rio do Sul, e, no dia seguinte, finalmente, chegar à sala de cirurgia.
Recuperou-se, mas não do grande temor: os joelhos podem fraquejar de novo – a qualquer momento –, com consequências imprevisíveis.
Laudos atestam diversas deformidades e degenerações ósseas que avançam ao longo de mais de uma década. Apenas “cirurgias múltiplas” podem resolver. Entretanto, é justamente aí que a situação segue emperrada.
Apesar da situação crítica, somente em maio de 2022, um ano após conseguir a necessária primeira consulta em Lages, acabou, enfim, incluída no Sistema de Regulação (Sisreg) – e levou o susto.

Exame, em 2009, já indicava comprometimento severo dos joelhos de Iolanda. (Foto: Reprodução)
Surreal: 40 anos!
Cadastrada junto à Central Reguladora de Lages para realizar o procedimento nas articulações no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres, localizado naquele município da Serra catarinense, Iolanda ocupa a posição de número “568” da lista de espera por cirurgias.
O lugar dela na fila quilométrica também causou espanto para a irmã da paciente, que fez o ‘achado’ através da internet.
Sem qualquer cerimônia, o sistema online do governo informa a “previsão para atendimento em dias: 14809”.
Isso mesmo. Quarenta anos! Qua-ren-ta! Dito de outra maneira, a estimativa surreal indica que o Estado somente terá tempo para cuidar de Iolanda caso ela alcance 112 anos (!).

Dados de Iolanda na lista de espera para operar joelhos. (Captura de Tela: SES/SC)
Oficialmente, até lá, Iolanda deverá permanecer fadada a torcer por dias sem dor que trazem alguma melhora na mobilidade dos membros inferiores.
Ainda assim, é obrigada a agarrar-se a paredes, depender da cadeira de rodas e apoiar-se em seu filho ou outra pessoa; ou empunhar o seu andador para cada esforço de locomoção. VEJA!
Essa batalha toda precisa ser enfrentada sem ela nunca ter sido assistida através de um benefício social do governo para ajudar a cobrir custos pessoais como, por exemplo, a necessidade frequente de uma cuidadora.
A propósito, não seria possível transferir parte dos pacientes da lista de Lages para unidades hospitalares de outros municípios catarinenses que também realizam esse tipo de cirurgia? Timbó? Penha?
Tamanho descaso e desrespeito com vidas humanas recai diretamente sobre autoridades públicas, como governador, ministro e presidente da República. Ou não?


Serviço do lar que consegue fazer, só mesmo usando cadeira de rodas. (Fotos: Arquivo Pessoal)
Nem amarelo, tampouco vermelho
Sim, mesmo com elevado risco de quedas – que podem até ser fatais –, a ‘alta ciência médica’ concluiu que a “classificação de risco” de Iolanda, no cadastro para cirurgia, não é amarela, tampouco vermelha, cores que indicariam urgência e emergência, respectivamente.
Qual é? É “verde”! Traduzindo, ‘ela pode esperar’…
Claro, a viúva não é mãe de nenhum prefeito, não tem parentesco com o governador, não é chegada a nenhum ministro, tampouco integra o círculo presidencial – como deve ser a realidade dos demais nomes do listão.
O histórico de honestidade, a reputação ilibada e o fato de ter trabalhado duro uma vida inteira em casa e na roça, e contribuído com seus impostos, bem, nada disso conta até aqui diante da doença.
Iolanda é vista apenas como mais um número – distante. Muito, muito, mas muito distante mesmo, como, literalmente, já vimos.
A garantia à Saúde prevista na Constituição Federal, no Estatuto do Idoso e em qualquer cartilha de direitos humanos? Simplesmente, rasga-se a dignidade; e fica por isso mesmo.

Triste rotina: cadeira de rodas ou andador. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Arquivo Pessoal)
Não reclame!
E tem mais. Numa das idas à Secretaria de Saúde, Iolanda chegou a ouvir uma servidora sugerindo-lhe que era melhor deixar o processo andar assim mesmo, não falar nada, senão poderia acabar tendo que recomeçar tudo de novo, caindo ainda mais para o final da fila.
Esse ‘fique quieta’ não soa como uma intimidação?
Além disso, por três vezes, cópia do mesmo raios-X mais recente da paciente precisou ser reencaminhado à Secretaria Municipal de Saúde de Taió. Extravio? Desleixo? Incompetência? Ou apenas azar?
Por conta da longa demora, um novo pedido de socorro havia sido encaminhado ao Ministério Público Santa Catarina (MPSC) ainda em 2022.
Diante da demanda, o jurídico da prefeitura taioense se defendeu alegando que cumpriu com a sua parte.
Já o promotor, que até se declarou compadecido com o caso em seu despacho, escreveu que o MP não pode agir como uma “fura-fila”, – algo jamais intencionado pelos familiares da vítima do descaso.
Resultado: o processo foi arquivado. Sufocada, a reclamação permanece até hoje trancada em alguma gaveta burocrática.
Assim, como as economias precisaram ser usadas ao longo de dez anos para tratamentos médicos do marido, que faleceu em meados de 2021, resta à Iolanda sujeitar-se à espera inacreditável imposta pelo Sistema Único de Saúde.

Sofrimento: caminhar é complicado e exige muito esforço. (Foto: Arquivo Pessoal)
Caótico: o que diz o governo de SC
Em junho passado, o site NSC Total publicou: “Santa Catarina precisa fazer mais de 1 mil cirurgias eletivas por dia para zerar as filas em até seis meses, uma das principais promessas de campanha do governador Jorginho Mello (PL)”.
Agora em julho, uma reportagem do ND Mais indica que a conversa mudou.
Citando uma fala atribuída ao próprio mandatário, o texto diz: “A fila não zerou [até agosto] porque a saúde pública em Santa Catarina estava podre, e não sabíamos que estava tão podre assim”.
Outro trecho acrescenta: “No entanto, o gestor disse ainda que as cirurgias oncológicas, de cateterismo infantil e ortopédicas foram zeradas”, – contrariando a verdade estapafúrdia enfrentada por Iolanda.
A matéria relata ainda que, para Mello, “os hospitais estavam desorganizados e a fila de cirurgias eletivas era incorreta”. O problema seria a existência de “nomes duplicados”, além de pessoas que já fizeram o procedimento, mas ainda constam no cadastro.
Se a operação de Iolanda deve ser ortopédica, a paciente não fez a cirurgia em nenhum dos joelhos e ela permanece na fila, quem está mais perdido: o cadastro ou o próprio discurso oficial?

Iolanda: qual autoridade pública se importa? (Foto: Arquivo Pessoal)
Acreditar…
De acordo com os dados da Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina (SES/SC), “62 mil pessoas aguardam na fila por cirurgias eletivas”.
Jorginho Mello diz que a espera para essa especialidade “deveria durar no máximo 90 dias”.
‘Deveria’. Ao mesmo tempo, agora, já eleito, admite: “A fila nunca vai terminar”, de acordo com declaração à imprensa estadual.

Jorginho Mello, governador de Santa Catarina. (Foto: Leo Munhoz-ND/Reprodução)
Frente à alegação de hospitais deteriorados, agravamento de casos de dengue e bronquiolite, além de uma avalanche de serviços, Mello continua: “Há pessoas que desistem, já fizeram particular, já faleceram. Precisamos organizar a fila, fazer um sistema novo, havia nomes duplicados e outros erros”, repete.
Será que pacientes reais do listão poderiam correr o risco de acabar tendo seus nomes excluídos do cadastro e recomeçar da estaca zero? Já pensou?
O governador garante “que sua gestão está dando soluções e fazendo reconstrução da saúde pública no Estado”. Já a mídia tradicional interpreta que ele “promete fila de até 3 meses”.
Certamente quem aguarda na longínqua classificação, o que infelizmente inclui Iolanda Pfau Neumann, acredita; mas só VENDO.

Iolanda: uma das pacientes, entre milhares de doentes, na fila de espera por cirurgia em SC. (Foto: Arquivo Pessoal)