Uma decisão tomada em uma licitação da Prefeitura de Taió, no Alto Vale do Itajaí (SC), acabou ganhando repercussão e levantando questionamentos sobre os critérios adotados no julgamento de propostas para uma obra de grande porte no município.
O processo envolve a construção de uma ponte de concreto armado sobre o Rio Itajaí do Oeste, que vai ligar as comunidades de Ribeirão Pinheiro e Ribeirão do Salto. O orçamento estimado pela administração municipal é de R$ 4,39 milhões.
A condução da licitação está sob responsabilidade do prefeito Aristides Elói Valentini (PSDB) e da Secretaria de Planejamento, Habitação, Turismo, Indústria e Comércio, comandada por Gerson Luiz Tomazi Loiola.
Proposta mais baixa saiu na frente — e caiu depois
A Zanco Construtora Ltda., de Xaxim, no Oeste catarinense, apresentou a menor proposta da concorrência: R$ 3.798.000,00. O valor representava uma diferença de cerca de R$ 599 mil abaixo do orçamento estimado pela própria Prefeitura.
Na fase inicial, a empresa chegou a liderar a disputa da Concorrência Eletrônica nº 63/2026. O cenário, porém, mudou após a análise técnica da equipe de engenharia e da Comissão de Contratação, que acabou desclassificando a proposta.
Segundo a ata da sessão, a decisão foi baseada em três pontos: supostas inconsistências na planilha de custos, dúvidas sobre a viabilidade de execução da obra pelo valor apresentado e o não atendimento integral de uma solicitação feita durante o procedimento.
Com isso, a licitação avançou para a análise da segunda colocada.
Detalhe virou ponto sensível no processo
Um dos elementos que mais chamou atenção no andamento da licitação foi o registro da decisão no sistema eletrônico. Em vez de constar como desclassificação da proposta, o sistema apontou “inabilitação”, termo que normalmente se refere a outra etapa do certame.
A Prefeitura informou que a situação decorre de limitação da plataforma digital utilizada, mas reforçou que a decisão se refere exclusivamente à proposta.
Ainda assim, o registro virou um dos pontos explorados no recurso da empresa, que vê na confusão entre fases um risco à segurança jurídica do processo.
Experiência em grandes obras entra na controvérsia
Em meio à repercussão do caso, publicações e vídeos disponíveis na internet reforçam o histórico da Zanco Construtora em obras de grande porte. Em um desses registros, a empresa aparece ligada à execução de uma ponte sobre o Rio do Peixe, no Oeste de Santa Catarina, com mais de 300 metros de extensão.
O projeto da ponte em Taió prevê cerca de 70 metros. A diferença é grande. A obra executada pela empresa é bem maior. Por isso, a comparação passou a ser citada na repercussão do caso.
Vídeo institucional mostra a execução de uma obra pela Zanco. (Fonte: Redes Sociais)
Construtora reage
Inconformada, a Zanco Construtora protocolou recurso administrativo na Prefeitura no dia 18 de maio de 2026. O documento, assinado pela engenheira civil e sócia administradora Fabiane Zanco Bortolanza, se apoia na Lei Federal nº 14.133/2021, a nova Lei de Licitações.
A empresa sustenta que a decisão foi baseada em justificativas genéricas, sem indicação clara e objetiva dos itens supostamente irregulares na planilha de custos. Na avaliação da construtora, isso inviabiliza o direito de defesa e enfraquece a transparência do julgamento.
Outro ponto levantado é que a legislação prevê a possibilidade de correção de falhas formais em propostas, desde que não haja alteração do valor global. Segundo o recurso, essa etapa não teria sido oportunizada antes da desclassificação.
A defesa também critica o registro da decisão como “inabilitação”, apontando mistura entre fases distintas da licitação.
No recurso, a empresa pede a reversão da desclassificação e o retorno do processo à fase de julgamento, com sua proposta novamente considerada. De forma alternativa, solicita uma nova análise técnica com detalhamento dos pontos questionados ou, ainda, o encaminhamento do caso à “autoridade superior”.
O que está em jogo
A obra da ponte é considerada estratégica para a ligação entre comunidades rurais de Taió e tem impacto direto na mobilidade do interior do município.
No centro da discussão está o efeito prático da decisão: a proposta mais baixa foi retirada da disputa, o que pode abrir espaço para ofertas de valores mais altos.
Com isso, o caso passou a ser acompanhado com atenção, não apenas pelo aspecto técnico da licitação, mas também pelo possível impacto financeiro aos cofres públicos.
Agora, a decisão está nas mãos da Prefeitura de Taió, que deverá analisar o recurso e decidir se mantém ou revê a desclassificação. Até lá, o processo segue aberto — e o desfecho, em torno de uma das principais bandeiras da gestão de Aristides Elói Valentini, ainda é incerto.
Foto de capa: Divulgação/Prefeitura de Taió