RIO DO SUL – O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) denunciou 14 pessoas acusadas de integrar uma organização criminosa sofisticada, responsável por fraudes em licitações e desvio de recursos da Secretaria Municipal de Saúde da maior cidade do Alto Vale do Itajaí (SC). Entre 2023 e 2024, o grupo teria desviado R$ 11,3 milhões do erário.
Segundo o órgão, os denunciados agiam de forma organizada para fraudar licitações e contratos administrativos, criar empresas de fachada, repassar propinas e lavar recursos públicos.
Suposto ‘cabeça’ do grupo
No centro das acusações está o médico Gregori Fernando Bertagnolli, apontado como líder e beneficiário direto das principais fraudes. Segundo o MP, ele utilizava empresas registradas em nome de terceiros para firmar contratos com o Fundo Municipal de Saúde.
A ex-secretária de Saúde Roberta Hochleitner, atualmente ligada à prefeitura de Rio do Oeste, município vizinho, é descrita como peça-chave do esquema, responsável por manipular editais e processos licitatórios.

(Roberta Hochleitner, ex-secretária de Saúde).
Já a vereadora Sueli Terezinha de Oliveira (PSD), que atuou anteriormente na Secretaria de Saúde, teria exercido influência política sobre Roberta, recebendo valores ilícitos em troca da intermediação.

(Vereadora Sueli Terezinha de Oliveira, PSD).
Como funcionavam as fraudes
De acordo com a investigação, o grupo criou empresas em nome de “laranjas” para disputar licitações previamente direcionadas. Em alguns casos, apresentavam documentos falsos para simular concorrência.
Além disso, cobravam uma comissão de 25% sobre os contratos, que abastecia o sistema de propinas. Parte do dinheiro era repassada a agentes públicos e políticos, enquanto outra parcela circulava em operações de lavagem para dar aparência de legalidade.
Exemplos de contratos suspeitos
Um dos casos citados é o Pregão nº 40/2024, vencido pela empresa Gestão Médica Alto Vale Ltda, criada especificamente para o certame. Sozinha na disputa, a firma recebeu R$ 1,62 milhão em contratos. A investigação concluiu que 75% do valor ficou com os sócios formais e 25% retornou aos articuladores como comissão.
Outro exemplo é a Dispensa de Licitação nº 23/2024, na qual a empresa RB Construções Ltda recebeu R$ 276 mil para serviços de pintura e limpeza em postos de saúde. O contrato foi embasado em três orçamentos considerados fraudulentos, sendo que o próprio administrador de fato da empresa vencedora teria apresentado também as propostas dos supostos concorrentes.
Houve ainda a Dispensa de Licitação nº 43/2024, na qual a empresa MAC Carlesso Eletro Ltda foi contratada por R$ 27,8 mil para manutenção de equipamentos. Segundo a investigação, o processo teria sido apenas simulado, com o objetivo de justificar pagamentos por serviços já prestados anteriormente de forma irregular.
Rastro do dinheiro
Os recursos eram transferidos sucessivamente entre os membros do grupo através de contas de Eládio Ramos e Claudete Hoepers, que funcionavam como centralizadores dos valores antes de repassá-los aos demais integrantes.
Planilhas apreendidas mostram anotações como “Pix para Claudete/Santander que repassará ao Dr.” e “comissão Carina”, reforçando a divisão detalhada dos recursos.
Entre abril e agosto de 2024, o MP identificou 31 operações de lavagem de dinheiro, com transferências fracionadas e sucessivas entre contas de pessoas físicas e jurídicas.
“Dinheiro vivo”
Na operação deflagrada em novembro de 2024, foram cumpridos mandados de busca e apreensão.
Durante as diligências, agentes encontraram R$ 7 mil em espécie no carro da vereadora Sueli Terezinha de Oliveira, valor que teria sido entregue no dia anterior por Gregori Bertagnolli como parte do esquema.

Acusações formais
Os crimes imputados incluem organização criminosa, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e dispensa ilegal de licitação.
Além das condenações criminais, o MP pede que sejam confiscados os valores obtidos com os crimes — incluindo dinheiro bloqueado em contas e quantias já apreendidas — totalizando R$ 11.343.965,88. Também solicita que os réus reparem os danos materiais e morais causados ao município.
Demais denunciados
Completam a lista de denunciados: o empresário James Werner Heesch; Claudete Hoepers, companheira de Eládio; Eládio Ramos, administrador de fato da RB Construções; Jelton da Silva e Almir Abud de Moraes, sócios da Gestão Médica Alto Vale; Carina Buzzi, gerente administrativa de Gregori; além de Saulo José Elias, Josiane Carlesso e Morgana Rieg, ligados à contratação da MAC Carlesso.
Dois investigados, Natália Alves Antunes Ribeiro e Anderson Balbino Medeiros, chegaram a receber proposta de Acordo de Não Persecução Penal, mas recusaram.
O caso tramita na Vara Estadual de Organizações Criminosas.
Ex-prefeito não é citado
Embora os crimes tenham ocorrido durante a gestão do ex-prefeito José Thomé (PSD), o Ministério Público não atribui a ele qualquer participação no esquema. O nome do ex-prefeito não aparece na denúncia.

Democraticamente, o portal Alto Vale Agora está aberto para que os citados pelo Ministério Público ou seus representantes legais se manifestem.