Às margens Direita e Esquerda do Rio Taió vivem duas comunidades enganadas já há quase meio século por políticos interesseiros. Ao longo desse tempo, crianças viraram adultos e homens e mulheres já se tornaram pais e até avós, mas a realização da obra – prometida por oportunistas descarados em busca de votos a cada nova eleição – nunca deixou de ser mera lenda: o asfaltamento entre Taió e Mirim Doce, no Alto Vale do Itajaí (SC).
Em vez disso, até hoje, o trajeto de quase 10 km castiga – com buracos, lama e poeira – todos que precisam enfrentar o deslocamento entre as duas cidades, independentemente de qual das duas estradas de chão ao lado do rio for a escolhida.
A mentira crônica contada por candidatos embusteiros também continua dificultando o escoamento da produção agrícola de arroz, cultura expressiva no município.

E como 2022 é ano de mais uma eleição, nem poderia ser diferente: a fábula da ligação asfáltica entre os dois municípios parece ganhar de novo vida própria.
Mas, dessa vez, a trama vem ressuscitada com um roteiro ainda mais infame.

Briga: duas margens, dois prefeitos e muitos interesses…
O capítulo mais recente em torno da novela do asfaltamento – das estradas que dificultam a vida de taioenses e mirindocenses às margens do rio – tem novos personagens. Traição e intriga também se misturam ao roteiro.
O papel de vilão da história sobrou para o prefeito de Taió, Horst Alexandre Purnhagen (MDB). É o que revelou uma declaração do prefeito de Mirim Doce, Bernardo Peron (PSD), à reportagem do portal Alto Vale Agora.
Segundo “Tio Bê”, Mirim Doce resgatou e, com o apoio do administrador taioense, encaminhou ao governo catarinense um antigo projeto de asfaltamento pela Margem Direita.

Considerando que o próprio governador Carlos Moisés (Republicanos) chegou a afirmar em uma visita à cidade que iria liberar a verba para asfaltar no lado do rio solicitado por ambos, Peron conta que fez um acordo com Purnhagen, seu vizinho: os dois asfaltariam, com recursos próprios, a outra margem, a Esquerda.



No entanto, Purnhagen não só teria quebrado sua palavra, como também articulado para o estado mudar os planos da obra da Margem Direita para a Esquerda.
Especula-se que o prefeito tenha desistido de tirar dinheiro do caixa taioense. Informações de bastidores também dão conta que Alexandre pode ter cedido à pressão do setor industrial – mais desenvolvido na Margem Esquerda.
Para indústrias alimentícias, por exemplo, a falta de acesso pavimentado impede a habilitação para a conquista do mercado externo.
Assim, se não saísse o asfalto por ali, a represália seria a venda de produtos através de filial instalada em outro município, o que prejudicaria o retorno tributário para Taió.
Impasse e protestos
Dessa vez, a briga política aparece como a nova ameaça ao velho sonho; como se já não bastassem as antigas lorotas de asfaltamento contadas aos eleitores.
Por conta do impasse, até prazos para envio de documentos necessários à realização da obra teriam sido descumpridos.
A situação provocou rompimentos. O presidente da Câmara de Vereadores de Taió, William Henrique Noriller (PSD), tirou seu apoio ao prefeito taioense. Noriller teme perder capital político. Ele tinha prometido o asfalto pela outra margem, a Direita.

Enquanto isso, Bernando Peron trabalha há alguns meses na terraplanagem de um trecho de 2 km da via em Mirim Doce, supostamente seguindo o plano quebrado por Alexandre.
“Tio Bê”, como é conhecido, estaria usando recursos do próprio executivo. Além disso, o gestor municipal firmou parceria com uma empresa que precisa de muito barro para construir uma usina e que forneceu mais caçambas para agilizar o serviço de remoção de morros.

Já o povo, ludibriado ao longo de décadas, passou a protestar. A manifestação cravou palanques que sustentam faixas às margens do Rio Taió. Uma delas diz: “Prefeito, queremos que cumpra com a palavra”.




Queda de braço
Segundo as informações mais recentes obtidas pelo portal Alto Vale agora, acaba de ocorrer um empenho em favor de Taió no valor de R$ 3 milhões para a construção da via pela Margem Esquerda. A novidade foi identificada pela assessoria da prefeitura de Mirim Doce.
Mas o vice-prefeito mirindocense, Jian Paulo Cardoso (União Brasil), estava em Florianópolis (SC), na última quinta-feira (23), tentando garantir o depósito da parcela referente à assinatura do convênio do asfaltamento pela Margem Direita.
Vale destacar que Cardoso está muito empenhado em sua meta. Além disso, ele tem acesso direto ao governo estadual. Confiante, espera obter uma posição antes do dia 2 de julho, prazo que marca o início das restrições eleitorais.

Tensão e alerta
Por um lado, Horst Alexandre Purnhagen parece ceder à pressão empresarial vinda da Margem Esquerda. Por outro, o revés também poderá vir de agricultores por conta do descumprimento do projeto autorizado pelo governo do estado pela Margem Direita.
Em meio ao clima de tensão, vale ressaltar que as duas comunidades têm um projeto de nome interessante: “Associação das Margens Unidas”.
No entanto, como uma das táticas mais perversas das velhas raposas políticas é “dividir para conquistar”, a população local precisa tomar extremo cuidado e não se deixar usar como massa de manobra.
O asfalto é necessário nas duas laterais do rio. E há recursos públicos para isso. Cair na ‘armadilha’ seria ver o projeto da pavimentação, outraz vez, permanecendo apenas um “blá-blá-blá”.
Portanto, é fundamental que as comunidades das margens Direita e Esquerda se mantenham – mais do que nunca – UNIDAS!
Fotomontagem de Capa: Alto Vale Agora