Já Marcelo dos Santos detona: “Se eles querem se matar, azar é deles! Mas, e se pega uma família inocente de Lontras?”, alerta. Afinal, quem se beneficia com o Helmuth Baumgarten, custeado pelo povo?
“Festa de arromba dentro do aeroporto”, “pilotos voando alcoolizados” e “rasantes sobre casas”, além de “motos potentes fazendo racha com veículos na pista”, “rally de carros”, hangares com “geladeira, bar, churrasqueira”, sendo um deles “clandestino”, e supostos pousos e decolagens “sem controle” no aeródromo. Esta coleção de bizarrices atormenta moradores do entorno do Helmuth Baumgarten, em Lontras, no Alto Vale do Itajaí (SC), segundo denuncia o vereador Revelino Kletemberg (MDB).
O parlamentar municipal aponta: “Os ‘bam-bam-bam’ são o temor da comunidade. Uma pequena elite irresponsável”, dispara.
O grupo, de longa data, estaria fazendo o que bem entende no campo de aviação – financiado com verbas públicas, inclusive dos 28 municípios da região que sustentam, há quase um ano, o consórcio do Aeroporto Regional Alto Vale.
Os relatos dos abusos no aeródromo ganham força por causa da morte de dois homens no mês passado após supostas horas de manobras arriscadas no local.
O inquérito policial deverá apurar como ambos usaram a pista destinada aos aviões para correr de carro e acabaram caindo com o automóvel no rio Itajaí-Açu, perto de uma das cabeceiras do aeroporto.

Arrancadão de carro, na pista do aeroporto, terminou no rio – com duas mortes. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Redes Sociais/Reprodução/Arquivo)
Descontrole?
Revelino Kletemberg relata que também há rumores de movimentações “sem controle” no aeroporto em Lontras.
Ele diz que não se consegue saber quantas aeronaves e quais vão pousar no Helmuth Baumgarten.
A superintendência do campo de aviação não liberaria tal informação, alimentando até desconfianças.
Ainda de acordo com o vereador, o aeródromo abriga duas aeronaves pequenas que foram “emprestadas pelo governo catarinense”.
Recentemente, o estado teria comunicado que faria uma vistoria nelas: “Dizem que foi um desespero para buscar [o avião] no Mato Grosso. O que ele estaria fazendo lá?”, pergunta-se Kletemberg.
A prefeitura de Rio do Sul, gestora do local, já destacou, publicamente, que o aeroporto serve para transportar pacientes, órgãos doados e favorecer o desenvolvimento regional.

Aeroporto costuma sediar eventos. (Foto: Redes Sociais/Arquivo/Reprodução)
Alertas
Meio ano antes do acidente fatal de maio passado, Kletemberg conta que já vinha alertando, através de ofícios, sobre a necessidade de mais segurança no aeroporto, mas era ignorado, sustenta. Ele chegou a reiterar o pedido uma semana antes da tragédia.
Entretanto, o vereador relata que o superintendente do aeroporto só compareceu para prestar os esclarecimentos na Câmara de Lontras porque precisou da aprovação dele, na Comissão de Cultura e Esporte, ao projeto do executivo de patrocínio ao “Fly-In Festival”.
“O maior evento aeronáutico do Sul do Brasil” foi realizado em 20 de maio pelo Aeroclube de Planadores de Rio do Sul, entidade localizada dentro do aeródromo.
A comemoração desregrada dos bons resultados desse encontro, sete dias depois, teria terminado no lamentável acidente com as mortes dos dois ocupantes do carro, um de 40 anos e outro de 42.
O fato foi escondido pela mídia comercial, mas tornado público, em detalhes, pelo portal Alto Vale Agora.

Propaganda chamou público para evento uma semana antes da tragédia. (Captura de Tela: Aeroclube de Planadores de Rio do Sul/Facebook)
“‘Abafa’ geral”
Kletemberg também questiona o comando do aeroporto sobre outro acidente, o da queda de um avião de pequeno porte em 24 de setembro do ano passado, no bairro Salto Pilão, em Lontras.
O vereador conta que o monomotor caiu na propriedade de um familiar: “Foi um ‘abafa’ geral. Quase agrediram o meu tio. Proibiram foto e filmagem”, relembra ao dizer que havia três sobreviventes no aparelho, sendo que o caso “não teve nenhuma investigação”.
O superintendente, acrescenta Revelino, informou que não dava para saber detalhes porque o proprietário construiu no lado oposto do asfalto do campo de aviação um “hangar clandestino, cortou a cerca de arame farpado, ganhou acesso à pista; e voa a hora que quer”.
“Em uma área invadida, de segurança nacional!”, espanta-se o parlamentar. Mesmo após alguns anos, o abrigo não teria sido desativado, nem demolido.
Inclusive, também haveria “um esquema de propina para construção de hangares” em torno do Helmuth Baumgarten, denuncia o vereador.
Perguntado se não seria o caso de instalar uma comissão parlamantar para investigar as situações expostas, Kletemberg disse que acredita que isso não teria eficácia por conta de pressão externa.

‘Churrasquinho’ à beira da pista do aeródromo. (Foto: Redes Sociais/Divulgação/Arquivo)
Anac “sem sal”
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) respondeu, agora em junho, ofício do vereador Revelino Kletemberg, que pleiteia fiscalização e maiores controles no aeroporto.
O documento diz que a Superintendência de Infraestrutura Aeroportuária (SAI), responsável pelo processo de vigilância remota, foi cientificada sobre o relato do hangar “construído de forma irregular e que foi cortado o cercamento do local para que aeronaves pudessem usar a estrutura”.
Já a informação de suposta “existência de pessoas alcoolizadas pilotando aeronaves”, bem como o questionamento sobre “as documentações para tal atividade” foram encaminhados à Superintendência de Pessoal da Aviação (SPL), “para ciência e providências”.
O documento informa que o processo em andamento concedeu 30 dias às prefeituras de Rio do Sul e Lontras para manifestação, “sob pena de aplicação de medida cautelar com restrição às operações aéreas no aeródromo, pelo risco presumido” previsto em portaria da Anac.

Anac não convenceu vereador. (Captura de Tela: PDF/Anac/Divulgação)
Para Kletemberg, o retorno dado pela Anac “foi uma resposta meio sem água, sem açúcar, sem sal. Choveu no molhado. Não respondeu nada com coisa nenhuma”.
A crítica foi feita durante a sessão na segunda-feira (19) no legislativo lontrense, onde ele comunicou que vai, de novo, oficiar a Agência Nacional de Aviação Civil, esperando “fiscalização efetiva” e “punição” após as mortes de Daniel Kirchner e Bruno Dafovo, presidente e diretor do Aeroclube de Planadores de Rio do Sul, respectivamente.
O político também atribuiu boa parte da culpa dos desmandos aos vereadores de oposição da gestão passada, que perderam a chance de trazer o aeródromo do Estado para o controle de Lontras – ao entregá-lo, em votação, ao município rio-sulense. VEJA!
Concordando com Kletemberg, o vereador Marcelo dos Santos (MDB) detonou as “loucuras” flagradas no aeroporto: “Se eles querem se matar, azar é deles! Mas, e se pega uma família inocente de Lontras?”. Marcelo ainda chamou o gestor do aeródromo de “doutor irresponsável”. ASSISTA!
Espaço aberto
O epicentro dos problemas seria o Aeroclube de Planadores de Rio do Sul, conforme afirmação do parlamentar municipal denunciante.
Apesar de funcionar no mesmo lugar, a entidade privada é distinta do aeroporto público onde está sediada, explicou o gestor do aeródromo, Jaison Fernando de Souza, na Câmara de Lontras.
Oficialmente, o executivo rio-sulense possui, até o momento, no Portal da Transparência, apenas contrato de prestação de serviço de um “vigilante patrimonial – 44 horas semanais, DIURNO”, no Helmuth Baumgarten.
Kletemberg afirma que essa vigilância não alcança os comportamentos abusivos da “pequena elite irresponsável”.
O acordo foi firmado ainda no final de 2021 com uma empresa de fora, a “Nelson Ferrari Ltda”, do município de Dois Vizinhos (PR). Atualizado, o valor contratual soma “R$ 193.487,34”, informa o Portal da Transparência.
A fornecedora paranaense também é credora com diferentes serviços, como de limpeza, conservação predial e jardinagem, em outras secretarias municipais rio-sulenses.
Em 2021, recebeu pagamentos totais de “R$ 19.892,18”. No ano seguinte, 2022, o montante saltou para “R$ 312.086,14”. Até 23 de junho de 2023, o faturamento total já alcança “R$ 243.289,85”.
Democraticamente, nosso espaço permanece aberto para os operadores do Helmuth Baumgarten, isto é, aos representantes das duas prefeituras – Rio do Sul e Lontras –, para eventual posicionamento frente à denúncia do vereador Revelino Kletemberg.

Vista aérea do aeroporto Helmuth Baumgarten. (Foto: Flight Simulator/Reprodução)
- Fotomontagem de Capa: Flight Simulator/Câmara de Lontras-YouTube/Reprodução