- A informação que gera opinião!

DISPAROU: De um ano para outro, prefeitura pagará por coleta de suposto salto de 20% no volume de lixo produzido em Rio do Sul

Contrato de R$ 11,2 milhões prevê quantidade de remoção de resíduos que já se aproxima do lixo que costuma ser recolhido após destruição causada por enchentes. Além disso, há outros dois gastos: reciclagem (R$ 1,4 milhão) e contentores (R$ 651 mil).

Por Redação

8 de dezembro de 2022

às 07:45

Compartilhe

Desafiando o entendimento lógico, o prefeito de Rio do Sul (SC), José Thomé (PSD), assinou, em setembro passado, um contrato prevendo que houve uma suposta disparada de 20% no volume de lixo a ser coletado na capital do Alto Vale – de um ano para o outro. O ‘detalhe’, do acordo de R$ 11,2 milhões firmado com uma empresa que abriu um dia após a assinatura do documento, quase passou despercebido; mas acaba de vir à tona.

O próprio Termo de Referência (TR) revela que a média da massa de resíduos recolhidos no município nos últimos cinco anos, entre 2017 e 2021, é de 1.250 toneladas por mês. O cálculo resulta em 15 mil toneladas anuais, a quantidade removida para o aterro sanitário no ano passado.

Entretanto, o milionário contrato atual estabelecido com o “Consórcio S.S. Resíduos”, de Joinville (SC), estipula valor unitário de R$ 623,63 por tonelada para uma estimativa de recolhimento de 18 mil quilos ao longo de 12 meses, entre 1º de setembro de 2022 e 31 de agosto de 2023.

Caminhão de coleta de resíduos. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Enchentes e inundações”

Assinado pelo secretário de Infraestrutura, Daniel Pasa, e pelo engenheiro sanitarista do Departamento do Meio Ambiente, Emerson Souza, o Termo de Referência expõe: “Apesar da média girar em torno de 1.250,00 toneladas mês, o município de Rio do Sul por ser suscetível a enchentes e inundações, já registrou pesagem de até 1.672,34 toneladas naquele mês do evento climático.”

O documento completa: “Assim sendo, importante destacar que eventos excepcionais, tais como as inundações e enchentes, podem elevar a quantidade de resíduos coletados no mês.”

Estaria alguma ‘bola de cristal’ do executivo rio-sulense antevendo algum desastre ambiental que não foi tornado de domínio público?

Lixo acondicionado em estação de transbordo. (Foto: Reprodução/Arquivo)

De qualquer forma, em casos de decretação de estado de calamidade pública, caberia um contrato extra por dispensa de licitação.

Aliás, tal contratação emergencial da Saay´s Soluções Ambientais Ltda ocorreu em março de 2021 para “serviços de coleta e destinação final de resíduos sólidos da construção civil, provenientes de enxurrada” na Valada São Paulo. O registro do valor inicial do contrato para serviço e remoção de 250 toneladas foi de R$ 55,4 mil.

Considerando que a “população estimada de 72.931 habitantes, conforme dados do IBGE do ano de 2021”, não teve acréscimo de 20% em 2022, o mistério permanece.

Vista aérea do Rio Itajaí e da cidade de Rio do Sul (Foto: Divulgação/Internet)

Reciclagem: mais R$ 1,4 milhão

Além do contrato de R$ 11,2 milhões, a prefeitura rio-sulense tem outro de R$ 1,4 milhão para a coleta de lixo em condições de reciclagem, conforme dados disponibilizados no Portal da Transparência.

A fornecedora é a Sematrans – Serviços, Manutenção e Transporte Eireli, com sede na cidade de Balsa Nova (PR).

Segundo a cláusula primeira do acordo, trata-se de “coleta manual e mecanizada de resíduos domiciliares recicláveis e sua destinação até o Centro de Triagem definido pelo Município” pelo período de 12 meses, até setembro de 2023.

Chama a atenção que o prefeito José Thomé já tinha assinado um contrato anterior de credenciamento incentivando a reciclagem em centro de triagem de lixo – sem custo algum para o executivo.

O acerto, que reduz a poluição ambiental, foi feito com Ricardo Alessandro Claudiano, presidente da Associação Recicla Rio do Sul, e tem validade de janeiro de 2022 a janeiro de 2023.

A cláusula terceira define que a contratante, “livre de quaisquer ônus ou encargos”, doa à contratada todo o material reciclável, sendo que “a quantidade de 25 toneladas/mês é mera estimativa” e o montante “será dividido entre todas as Associações/Cooperativas contratadas – no limite máximo de 5 (cinco), conforme rodízio” estabelecido.

Em contrapartida, a Recicla “deverá aplicar o montante financeiro oriundo da reciclagem dos resíduos em prol da coletividade dos catadores que compõem a Associação/Cooperativa”.

Esse processo, livre de custos para os cofres públicos, pode ser fortalecido, e muito. Com base nos dados oficiais, estima-se que, até o momento, o trabalho alcance apenas pouco mais de 10% do volume de recicláveis disponíveis no município.

Contentores: mais R$ 651 mil

Por fim, o executivo rio-sulense mantém ainda um terceiro contrato ativo de 12 meses, até final de agosto do próximo ano, no valor de R$ 651 mil, este com a Saay´s Soluções Ambientais Ltda, com sede em Gaspar (SC).

A finalidade é a “execução dos serviços de manejo de resíduos, com coleta manual e mecanizada de resíduos sólidos domiciliares orgânicos e rejeitos, transporte e a sua destinação final”, além de “gestão, disponibilização, manutenção, substituição, higienização e operação de contentores para acondicionamento de resíduos domiciliares orgânicos e rejeitos.”

A quantidade máxima do contrato é de 300 caixotes de coleta de mil litros, uma espécie de lixeiras comunitárias.

Porém, a própria assessoria de imprensa informou recentemente que seriam disponibilizados somente cerca de 70 contentores até o final de outubro e que apenas “há uma previsão de que no ano que vem [o número] passe de 120 equipamentos”.

Em uma rápida circulada por um bairro de Rio do Sul, nossa equipe já constatou que o Termo de Referência (TR) do contrato está sendo desrespeitado.

Identificamos contentores sem “sinalização refletiva, de acordo com as determinações do Código de Trânsito Brasileiro, de modo a facilitar sua visualização”.

Equipamento de coleta sem sinalização refletiva junto à Estrada da Madeira. (Foto: Alto Vale Agora)

Também encontramos outro equipamento que não apresenta nenhuma identificação, nem “da empresa contratada”, nem que está “à serviço do município de Rio do Sul” e tampouco “que se trata de contentor para acondicionamento de rejeitos”, itens definidos no TR.

Sem nenhuma identificação, contentor está fora da exigência contratual em bairro rio-sulense. (Foto: Alto Vale Agora)

(Contrato Superior: 205/2022; Licitação: 124/2022; Modalidade: Pregão Eletrônico; Modo de Disputa> “Aberto”; Requisição ao Compras nº 2099/2022 | Contrato Superior: 028/2021; Licitação: 38/2021; Modalidade: Dispensa de Licitação | Contrato Superior: 218/2022; Licitação: 125/2022; Modalidade: Pregão Eletrônico / Contato Superior: 308/2021; Credenciamento: 146/2020; Modalidade: Inexigibilidade | Daniel Pasa, secretário de Infraestrutura, matrícula nº 104485; Emerson Souza, engenheiro sanitarista/Departamento de Meio Ambiente, matrícula n º 3162996114 | José Eduardo Rothbarth Thomé, matrícula nº 218197)

(*Atenção: As reportagens do Alto Vale Agora refletem o olhar que o cidadão pode ter das ações públicas a partir das informações disponibilizadas nos Portais da Transparência. O serviço é determinado por força de lei. As instituições públicas estão obrigadas a publicar, em meio eletrônico e em tempo real, os dados pormenorizados sobre a execução orçamentária e financeira de suas receitas e despesas. Contratos e licitações, por exemplo, devem aparecer de forma clara e completa. Infelizmente, muitas vezes, a norma é desrespeitada. Ainda assim, nossa equipe deixa espaço aberto para as assessorias de imprensa que queiram esclarecer eventuais questões que lhes pareçam inconvenientes em textos referentes à instituição que defendem.)

Fotomontagem de Capa: Alto Vale Agora/Reprodução

Últimas notícias

A imprensa já noticiou vários usos indevidos de emendas PIX
As entidades beneficiadas desenvolvem trabalho social e de utilidade pública diverso