
A descoberta de dois vereadores e um diretor em uma espécie de comitiva clandestina na ‘24ª Marcha dos Prefeitos’ elevou de R$ 289 mil (link no final) para R$ 310,8 mil os gastos aos cofres públicos da região com o evento político, realizado de 27 a 30 de março deste ano, em Brasília (DF).
Ligados à Câmara Municipal de Ibirama (SC), os três não têm o nome constando na lista oficial de passageiros que havia sido fornecida pela Associação dos Municípios do Alto Vale do Itajaí (Amavi).
São eles: a vereadora Solange Nunes da Silva Vieira (PL), o vereador Valdemar Schaefer (MDB) e o diretor de secretaria Adilson Jung.

Vereadores Valdemar e Solange, além de diretor, viajaram de Ibirama a Brasília para a ‘Marcha dos Prefeitos’. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Divulgação)
De acordo com o levantamento da nossa equipe, o gasto total deles – pago com dinheiro dos contribuintes –, atingiu R$ 20.466,29.
No Portal da Transparência, o valor corresponde a diárias (R$ 3.265,20 para cada, totalizando R$ 9.795,60), taxa de inscrição junto à Confederação Nacional dos Municípios – CNM (R$ 1.350,00), indenização de despesas com locomoção a Valdemar (R$ 363,56), além de passagens áereas (R$ 8.957,13, no total).

Custos da viagem dos dois vereadores e do diretor de secretaria do legislativo ibiramense a Brasília. (Captura de Tela: Portal da Transparência)
Enquanto os demais municípios adquiriram os bilhetes para embarque aéreo através da “LMTZ Viagens e Turismo Ltda”, o trio ibiramense fez a compra via “Alvostur Agência de Viagens Ltda”, empresa sediada no próprio município.
Chama a atenção que o empenho é datado de 1º de fevereiro, portanto, 54 dias antes da viagem.
Mesmo assim, Solange, Valdemar e Adilson não aparecem incluídos na listagem da comitiva que a assessoria de imprensa da Amavi tinha repassado após solicitação do portal Alto Vale Agora. Apenas o prefeito Adriano Poffo (MDB) está lá.

Delegação ‘fantasma’: vereadores e diretor da Câmara Municipal de Ibirama não têm nomes inscritos na mega caravana de 44 pessoas de 25 municípios. (Captura de Tela: Amavi/Arquivo)
Marchando na marcha alheia?
Popularmente, a “Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios” é conhecida como ‘Marcha dos Prefeitos’.
Na vigésima quarta edição, o tradicional – e dispendioso – encontro na capital federal, mais uma vez, esteve voltado a gestores de municípios, como o próprio apelido do evento sugere.
A participação de vereadores causa estranheza, visto que eles têm a sua própria reunião nacional: a “Marcha dos Legislativos Municipais” que, este ano, já na vigésima segunda edição, é anunciada para ocorrer de 25 a 28 de abril, também em Brasília (DF).

Material de divulgação mostra que, um mês mais tarde, parlamentares municipais terão seu próprio evento. (Arte: UVB/Reprodução)
Além de Ibirama, Rio do Oeste…
Apesar de parecer esquisito, os vereadores de Ibirama, os clandestinos, não foram os únicos do Alto Vale que não conseguiram se conter e evitar gastos aderindo à ‘Marcha dos Prefeitos’.
Conforme mostramos em uma investigação anterior (link no final), tal ‘ansiedade’ também tomou conta da Câmara Municipal de Rio do Oeste.
Por lá, além do prefeito Diogo Ferrari (Progressistas), integraram a mega caravana da Amavi, os vereadores Jonas Guber e Silvio Santino da Silva, o “Silvinho”, ambos do MDB. Contudo, eles aparecem na relação de passageiros.
Com três diárias e meia pagas para cada um, o valor das passagens aéreas e mais duas taxas de inscrição (somando R$ 800,00 e identificadas durante este levantamento), a dupla custou ao erário R$ 16.680,00.

Vereadores Jonas e Silvio viajaram de Rio do Oeste a Brasília para a ‘Marcha dos Prefeitos’. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Reprodução)
Quer dizer: com cinco pessoas, sendo quatro vereadores, os legislativos de Rio do Oeste e Ibirama somam despesas de R$ 37 mil na ‘Marcha dos Prefeitos’, cerca de 12% do total dos gastos regionais no evento – tudo dinheiro proveniente dos pagadores de impostos.
Isso pode?
Afinal, vereadores em ‘Marcha de Prefeitos’ podem ser considerados ‘penetras’?
A participação deles encontra respaldo na legalidade? É moral?
Se os parlamentares municipais têm o dever de fiscalizar, quem fará isso neste caso? Algum dos seus colegas de Casa se habilita?
Democraticamente, deixamos o espaço aberto para eventual manifestação dos citados nesta reportagem, bem como de representante da União de Câmaras e Vereadores do Alto Vale do Itajaí (Ucavi), ou de qualquer outro integrante do Poder Legislativo de municípios da região.

‘Marcha dos Prefeitos’: Vereadores deveriam participar? (Foto: Divulgação/Arquivo)
(Câmara de Vereadores de Ibirama > ADILSON JUNG, funcionário n. 5703, diretor de secretaria; SOLANGE NUNES DA SILVA VIEIRA, funcionária n. 7587, vereadora; VALDEMAR SCHAEFER, funcionário n. 1376, vereador – Empenhos: 88/2023; 87/2023; 86/2023; 89/2023; 72/2023; 16/2023 | Câmara de Vereadores de Rio do Oeste > JONAS GUBER, funcionário n. 75124, vereador; SILVIO SANTINO DA SILVA, funcionário n. 1708, vereador – Empenhos: 81/2023; 82/2023; 57/2023; 49/2023)