Autora da maior fake news da história do município (veja) e sem moral alguma, a administração municipal revelou aos eleitores que é capaz de usar até a Câmara de Vereadores como seu ‘puxadinho político’, em Taió, no Alto Vale do Itajaí (SC). Tudo para colocar no ‘paredão’ qualquer opositor que ouse questionar ou denunciar supostos erros do prefeito Horst Alexandre Purnhagen (MDB) ao Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).
A manobra vingativa ficou escancarada na sessão ordinária do legislativo na última segunda-feira (7).
O alvo da retaliação foi o vereador Eder Ceola (Podemos).
A oportunidade da ‘encomenda’ partiu de Emerson de Figueiredo, assessor jurídico da prefeitura. A ação foi compactuada por parte dos parlamentares municipais.
Por pouco, o vereador não enfrentou um processo investigatório – estapafúrdio – que alardeava até a cassação do seu mandato, apesar de ele ter imunidade parlamentar.
Sem apresentar a base legal, o perverso teatro de intimidação quis aterrorizar, dar uma ‘lição’, tentar calar quem não faz vista grossa para evidências de irregularidades. Foi uma amostra do autoritarismo que ainda permeia a política taioense.

A trama
Não satisfeito em contestar o vereador na sessão da semana anterior por “mentiras” proferidas na tribuna em outubro sobre o suspeitíssimo contrato da coleta do lixo assinado por Purnhagen, Emerson de Figueredo protocolou na Casa, dois dias depois, um ofício com a denúncia contra Eder Ceola.
O “fato 1” apontado pelo assessor jurídico foi o reajuste no preço do serviço prestado pela mesma empresa na vizinha cidade de Salete, acerto que acabou acontecendo antes de Ceola dizer na tribuna que não tinha ocorrido.
Já o “fato 2” teria decorrido de uma interpretação errada da fala anterior do vereador taioense. Baseado no mapa, Ceola comprovou que a distância percorrida pelo caminhão é maior de Salete até o destino, o aterro sanitário em Otacílio Costa, na Serra Catarinense. Mas para denunciá-lo, o advogado considerou a quilometragem feita pelo veículo de coleta dentro de Taió, uma tentativa de defender o valor mais alto da contratação. Esta ‘justificativa’ também já foi derrubada por um especialista ouvido pelo portal Alto Vale Agora (veja).

O documento protocolado por Figueredo no dia três de novembro – não é piada – pedia uma “análise sobretudo do decoro parlamentar do referido vereador” por causa da “utilização da tribuna para a divulgação de informação sabidamente falsa”. Por isso, reivindicava “as providências” que os legisladores entendessem “pertinentes” ao caso.
A provável combinação entre marionetes para assustar o vereador resultou em três votos “sim” e três “não” em torno do pedido de abertura do processo administrativo.
Coube ao presidente, William Henrique Norriler, desempatar a votação – após pequeno suspense, com o seu “não” final, o que arquivou o pedido bizarro.


Perseguição
Por trás do episódio que mancha a imagem do legislativo taioense, há uma guerra declarada contra Eder Ceola, considerado uma espécie de ‘pedra no sapato’ da atual gestão por ser a voz cortante de oposição mais forte dentro da Câmara Muncipal.
O político alega que sofre ameaça e pressão por denunciar questões controversas do executivo ao Ministério Público.
Entre elas, o suposto “superfaturamento” e “direcionamento” do contrato da coleta do lixo no município.
Outro enfrentamento diz respeito ao aparente escândalo de “venda de receitas médicas”.
Quem credenciou a clínica do médico à prefeitura foi a secretária de Saúde, Rozi Terezinha de Souza, rival de Ceola.
A denúncia virou inquérito civil e está sob investigação do MP, uma dor de cabeça sem tamanho para a gestão de Purnhagen (veja).

Contra-ataque
Ao discusar em sua defesa antes de a mesma sessão tentar articular sua cassação, o vereador Eder Ceola confrontou seu oponente lembrando um episódio polêmico que envolve o assessor jurídico da prefeitura de Taió.
“Vale lembrar que o advogado Emerson de Figueredo, que hoje está me denunciando, também sentiu na pele como é ser tratado como mentiroso quando recebeu Auxílio Emergencial em sua conta bancária, e depois de ter saído uma lista na cidade com o nome dos beneficiários do auxílio teve que ir nas redes sociais dizer que não sabia de nada e que seu nome foi usado injustamente. Muitos também não acreditaram na fala dele”, argumentou.
“Particularmente até hoje não consegui entender como o dinheiro aparece na conta bancária de alguém sem que esta pessoa tenha solicitado o auxílio. Eu nunca tive essa sorte de aparecer dinheiro na minha conta, assim, do nada!”, ironizou.

Apesar de sofrer a intimidação, o vereador garantiu: “Quero deixar bem claro à população de Taió e aos demais vereadores que compõe essa Casa Legislativa que este pedido feito pelo Emerson de Figueredo não me intimida em nada – e eu não vou parar”.
O parlamentar ainda argumentou que sua luta é pelo povo, uma vez que foi “eleito”, e não meramente “nomeado”.
E foi além: “Acho que ele [Figueredo] está com falta de trabalho, pelo amor de Deus! Mandar um ofício desse. Esse é o trabalho do vereador, fiscalizar”, reiterou.


Hipocrisia
O ato de fiscalizar, uma das atribuições exigidas por lei a todos os vereadores, demonstra enfrentar repressão com a cumplicidade da Câmara Municipal de Taió.
Em tese, a ‘tática dos coronéis’ da política é assim: ao opositor, perseguição e ameaças, e aos gestores públicos do executivo, blindagem total.
Dizendo-se “ameaçado, coagido e humilhado pelo Poder Público”, o próprio vereador Eder Ceola aponta a existência de ‘dois pesos e duas medidas’: “Se para a secretária o que existem são apenas indícios de ilegalidades, contra mim também existem apenas indícios de falsidade na minha fala. Mas para mim a medida é uma. E para a Secretária a medida foi outra.”
“Naquele caso da saúde, nem o Prefeito e nem o assessor jurídico Emerson de Figueredo pediram o impeachment da sua Secretária de Saúde, nem exoneraram ela e nem recomendaram o afastamento temporário dela durante as investigações”, acrescenta o político, que afirma também sofrer boicote na divulgação de notícias através da assessoria de imprensa da Casa sobre seu trabalho como vereador.

Será?
Após o episódio na Câmara Municipal de Taió, algumas perguntas ficam no ar.
Será que o legislativo também vai, de forma rápida, pedir a cassação do prefeito Horst Purnhagen por fake news no caso do ‘terreno da Barragem’? Afinal, o imóvel não foi devolvido ao Município, conforme mentira dele e do servidor licenciado Marco Vinicius Pereira de Carvalho.
Será que a Câmara Municipal teria a audácia de querer instituir ‘sigilos’ para acobertar erros da gestão de Purnhagen?
A propósito, quanto à Câmara, não seria mais apropriado investigar a ‘necessidade’ de gastos com viagem, em plena transição de governo, de quatro vereadores – Norriler, “Peixinho”, “Kakai” e Edésio – a Brasília (DF)?
O espaço aos citados e envolvidos permanece aberto para eventuais esclarecimentos.

(Ofício/denúncia S/Nº: Emerson de Figueredo OAB-SC 47.288 | 43ª Sessão Ordinária da Câmara de Vereadores de Taió, em 07/11/2022)
Fotomontagem de Capa: Alto Vale Agora/Reprodução