Quem viu a inauguração do Santuário de Nossa Senhora de Lourdes e do Louvor, em Ituporanga (SC), no sábado, 16 de julho, pode ter estranhado que o evento não teve show pirotécnico, espetáculo tradicional quando obras suntuosas são abertas à visitação.
A queima de fogos aconteceu, mas apenas no dia seguinte, domingo (17). E com um detalhe: apesar da montanha onde a santa foi construída abrigar um complexo turístico privado, quem pagou a conta do espetáculo no local foi o poder público.
Coincidentemente, a distribuidora de fogos, contratada por “dispensa eletrônica” pelo prefeito de Ituporanga Gervásio José Maciel (PP), tem sede em Nova Trento (SC). As duas cidades estão unidas através da “Rota Turística Religiosa Caminho do Louvor”, trajeto de 140 km de peregrinação entre os santuários de Nossa Senhora de Lourdes e de Santa Paulina.

As 230 unidades de traçantes, tortas e bombas coloridas custaram aos cofres públicos R$ 19,75 mil, segundo dados do Portal da Transparência.
Apesar de tratar de materiais de pirotecnia, o objeto da contratação por dispensa de licitação cita serviços de “impressão de mapa turístico informativo para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico”.
Oficialmente, a atração fez parte do “festival com dois dias de programação” que marcou a “abertura do turismo religioso em Ituporanga”, distante 170 km de Florianópolis (SC).

O público e o privado; e as sucatas
Em geral, uma atração turística traz dividendos a qualquer município. Por outro lado, o projeto do santuário, dedicado à “Padroeira dos Enfermos”, é privado.
O complexo pertence a um empresário e, como qualquer empreendimento, não se trata apenas de benfeitoria à cidade, ou adoração, muito menos de caridade.
O investidor busca lucros através da sua obra faraônica, uma das maiores do país, avaliada em cerca de R$ 12 milhões.
Nada é de graça. Quem chega de carro, paga R$ 10 pela cobrança do estacionamento. Só há permissão para circular pelo santuário de Lourdes após compra do ingresso que custa R$ 30. Para andar no elevador da cruz panorâmica, o visitante precisa desembolsar outros R$ 40.


Tratando-se de um negócio particular, a prefeitura de Ituporanga precisaria ter gasto com o show pirotécnico, aparentemente uma espécie de agrado feito estrategicamente no dia seguinte à inauguração?
A dúvida ganha força diante da situação crítica do sucateamento dos maquinários pesados do executivo, problema gerado pelo descaso ao longo dos anos.

Para não paralisar as obras públicas, o executivo precisou alugar equipamentos e, com isso, já teve prejuízos de R$ 3,6 milhões, conforme apurou recentemente o portal Alto Vale Agora.
O atual prefeito iniciou a renovação de frota, mas precisou buscar socorro através de um financiamento bancário de R$ 20 milhões – a ser pago pelo povo pelo prazo de oito anos, de acordo com o contrato.

‘Garoto-propaganda’
Paralelamente a tudo isso, Gervásio José Maciel também tornou-se uma espécie de garoto-propaganda do santuário, antes mesmo da inauguração do complexo religioso.
Em fevereiro passado, o prefeito foi à Serra Gaúcha com o sonho de “transformar a Terra da Santa e da Cebola numa cidade com o patamar turístico de Gramado” (RS).
A viagem, que incluiu agenda em Lages (SC), não foi patrocinada pelo santuário, mas também bancada pelos pagadores de impostos de Ituporanga. O gestor municipal recebeu diárias no valor de R$ 2,45 mil, segundo dados do Portal da Transparência.
O que você pensa sobre isso? Quando o assunto é turismo tudo é justificado? A prefeitura deveria gastar milhares de reais com poucos minutos de queima de fogos para abrilhantar um empreendimento particular que busca lucros, ou aplicar cada centavo em melhorias mais duradouras para o município? Qual o posicionamento dos vereadores ituporanguenses sobre o caso?

(Atenção: As reportagens do Alto Vale Agora refletem o olhar que o cidadão pode ter das ações públicas a partir das informações disponibilizadas nos Portais da Transparência. O serviço é determinado por força de lei. As instituições públicas estão obrigadas a publicar, em meio eletrônico e em tempo real, os dados pormenorizados sobre a execução orçamentária e financeira de suas receitas e despesas. Nossa equipe deixa espaço aberto para as assessorias de imprensa que queiram esclarecer eventuais questões que lhes pareçam inconvenientes em textos referentes à instituição que defendem.)
(Dispensa Eletrônica Nº 35/2022/PMI; Processo Licitatório Nº 75/2022; Modalidade: Dispensa de Licitação | Projeto de Lei (PL) 41/2022 – Alesc | Nº Empenho: 1085/2022; Nº Processo Digital: 2635/2022 | Contrato Superior: CONT. 0556.812/2022 [CEF/PMI]; Contrato n º 0556.812 – DV 97/CAIXA FINISA)
Fotomontagem de Capa: Alto Vale Agora