Completamente desconectados da realidade, em plena crise econômica, seis vereadores e um chefe de gabinete decidiram gastar cerca de R$ 20 mil para viajar a Brasília. Antes disso, a prefeitura do município autorizou detonar R$ 450 mil dos cofres públicos com a contratação de show nacional da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó.
Com a contratação pela prefeitura de um show nacional de Chitãozinho e Xororó por R$ 450 mil e gastos desnecessários de uma comitiva de vereadores em mais uma daquelas infames viagens a Brasília, políticos de Pouso Redondo (SC) passam a impressão que vivem em outro planeta de uma galáxia distante, bem distante. Afinal, os números revelam que autoridades do executivo e do legislativo do município da região do Alto Vale do Itajaí estão com as torneiras da gastança de dinheiro abertas ao máximo – para a infelicidade geral das contas públicas e da própria população.
O show da dupla sertaneja “de renome nacional” já está homologado, segundo o Portal da Transparência. A ação recai sobre o prefeito pousoredondense, Oscar Gutz (PL), e o vice, Rafael Neitzke Tambozi (PSL).

A apresentação artística, ao custo de quase meio milhão de reais, está prevista para ocorrer no próximo dia 23 de julho durante a programação da Festa Estadual do Tropeiro.
A fonte dos recursos para pagar o cachê aponta para a dotação de recursos ordinários da Secretaria de Administração e Fazenda, vinculada a “aplicações diretas” de “serviços de transporte escolar”.
Chitãozinho e Xororó foram contratados “através de sua empresa exclusiva Live Talentos Agenciamento, Produções e Publicidades Ltda”, de São Paulo (SP). A agência já figura como “vencedora” no processo licitatório em Pouso Redondo.
Longe do auge da carreira, a dupla sertaneja cobrava em média R$ 250 mil por apresentação antes do jejum imposto pelas restrições sanitárias da pandemia.
Com a retomada dos shows presenciais, a maioria dos artistas aproveita para recuperar suas perdas e, com isso, os cachês dispararam a ponto de dobrar.
Apesar dos preços inflacionados, a prefeitura de Pouso Redondo resolveu fazer o grande desembolso.

Batendo palmas da desgraça
Daqui a pouco mais de quatro meses, o show de Chitãzinho e Xororó deverá ganhar aplausos dos visitantes do evento.
Mas não esqueça: espetáculos dessa natureza, em geral, tiram dinheiro que poderia ser aplicado em outras áreas.
Além disso, são articulados para cair no gosto popular a fim ajudar a render futuros votos de eleitores mais desavisados.
E tais atrações acabam sendo pagas com o dinheiro dos impostos recolhidos, inclusive, de quem bate calorosas palmas aos artistas.

Banda
Não bastasse a despesa com o show nacional de Chitãozinho e Xororó, a administração pública projetou outro gasto artístico com a mesma festa.
Trata-se da contratação da Banda Musical San Francisco, através de sua empresa exclusiva San Francisco Transportes e Sonorização, de Cunha Porã (SC), para realizar show no dia 22 de julho de 2022. O custo previsto é de R$ 14 mil.
A justificativa do valor registra que “para efeito de verificar a razoabilidade do preço a ser desembolsado pela Administração Pública”, levando em conta o “mercado artístico regional”, não é possível contratar um show “para a mesma finalidade ou natureza, por valores inferiores a este”.
A situação desse espetáculo consta como “aberta” no Portal da Transparência.

O “recebimento e abertura” de envelopes das “propostas” dos dois espetáculos ocorreu no mesmo dia e horário: 2 de fevereiro de 2022, a partir das 8 horas da manhã.
Ambos os processos permitiram a contratação direta dos artistas por “inexibilidade de licitação”.
Vereadores: R$ 20 mil com diárias, passagens aéreas e carro cheirosinho
Enquanto a prefeitura gasta com shows em tempo de crise, seis vereadores e um chefe de gabinete da Câmara Municipal de Pouso Redondo enfiaram pelo ralo cerca de R$ 20 mil com mais uma daquelas viagens questionáveis a Brasília (DF).
O pretexto para o deslocamento do grupo – de sete pessoas! – foi o de representar o município “em várias audiências junto a deputados federais e órgãos do governo” reivindicando recursos financeiros.
A farra reuniu no mesmo passeio seis dos nove vereadores da Casa: ALVIR FIGUEREDO (PSD), CLAUDIR PIRES DE MORAES (PSD), GILMAR JUNKES (PDT), JOSANE DA SILVA (PL), LUIZ FERNANDO DA SILVA (PL) e o presidente do legislativo, RICARDO RAFAEL PATERNO (PSDB), além do chefe de gabinete JACKSON MACIEL DE MORAES. Todos “cumprindo uma agenda muita intensa”, como propagandeou um site regional.

A comitiva embarcou no último dia 8 e retornou no dia 10.
Cada integrante ganhou duas diárias e meia no valor de R$ 1.750,00. Ao todo, eles embolsaram R$ 12.250,00 de dinheiro público.
As sete passagens aéreas, com partida e volta pelo aeroporto de Navegantes, custaram outros R$ 7.474,88.
Além das despesas com deslocamento por terra, houve outro gasto extra: o chefe de gabinete foi ressarcido em R$ 149,00 pelo custo da “troca de lâmpadas do veículo Doblò [placas QIV 4260] pertencente à Câmara de Vereadores” e “de valor pago em estacionamento do aeroporto na cidade de Navegantes nos dias 08, 09 e 10 de março”.
Já a lavação que deixou o automóvel cheirosinho na véspera do embarque, dia 7, custou mais R$ 60,00.
Inaceitável
Em vez de jogar dinheiro público fora com carro oficial, combustível, passagens aéreas e diárias, bastaria encaminhar os pedidos de recursos a Brasília.
Entre as opções estão Sedex, telefone e e-mail. Videoconferências também podem ser facilmente realizadas com os deputados federais e senadores. Tudo com muito menos custo. Sem perda de tempo.
Apesar disso, o descontrole de gastos se repete.
No ano passado, outro grupo de vereadores de Pouso Redondo já tinha desperdiçado R$ 20,5 mil – também ‘em busca de recursos’ – em uma trapalhada mitológica diante de Bolsonaro ao viajar para Brasília. (RELEMBRE no link ao final da página).
Pouco se lixando
Pelo visto, em Pouso Redondo, o rastro de destruição financeira decorrente da imposição das restrições autoritárias durante a pandemia é ignorado.
A crise inflacionária galopante atribuída à recém-iniciada guerra entre Rússia e Ucrânia também parece não preocupar.
Quando o dinheiro público banca, sabe como é: é farra, né!

Show x Falta de médicos. Perguntas ignoradas x Live
Estranhamente, a assessoria de imprensa da prefeitura de Pouso Redondo ignorou as perguntas sobre o assunto (VEJA as questões abaixo) que foram encaminhadas pelo portal Alto Vale Agora.
Mas o prefeito Oscar Gutz e o vice Rafael Neitzke Tambozi correram para a internet na noite da última quinta-feira (17) e fizeram uma live de cerca de meia hora com informação – segundo ambos -, “transparente” sobre a 7ª Festa do Tropeiro.
Chamou a atenção que durante o esclarecimento, transmitido pelo canal oficial da prefeitura no Facebook, Gutz chegou a propagandear que é pré-candidato nas próximas eleições. Além disso, o político admitiu publicamente que o seu município sofre com a falta de médicos nas unidades de saúde.
Na sua opinião, com um problema tão grave na área da saúde, a prefeitura deveria gastar R$ 450 mil em um show de Chitãozinho e Xororó? (VEJA a live)
Perguntas não respondidas:
1) Qual é a origem dos recursos para pagar o show da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó?
2) Por que o Portal da Transparência vincula o valor de R$ 450 mil ao elemento “serviços de transporte escolar”?
3) O show será gratuito ao público ou haverá cobrança de ingresso? (Se houver cobrança, qual será o valor?)
4) Qual é o público esperado para o show da dupla sertaneja?
5) Qual é o balanço financeiro das últimas três festas estaduais do Tropeiro? ( Receita, Despesa e Lucro/Déficit)
6) A prefeitura não conseguiu negociar um valor melhor para o show da dupla? (Antes da pandemia, Chitãozinho e Xororó cobravam cerca de R$ 200 mil a R$ 250 mil).
7) A prefeitura tomou conhecimento da porcentagem de comissão recebida pela agência Live Talentos, empresa que assina o contrato com o executivo de Pouso Redondo?

(Atenção: As reportagens do Alto Vale Agora refletem o olhar que o cidadão pode ter das ações públicas a partir das informações disponibilizadas nos Portais da Transparência. O serviço é determinado por força de lei. As instituições públicas estão obrigadas a publicar, em meio eletrônico e em tempo real, os dados pormenorizados sobre aq execução orçamentária e financeira de suas receitas e despesas. Contratos e licitações, por exemplo, devem aparecer de forma clara e completa. Infelizmente, muitas vezes, a norma é desrespeitada. Ainda assim, nossa equipe deixa espaço aberto para as assessorias de imprensa que queiram esclarecer eventuais questões que lhes pareçam inconvenientes em textos referentes à instituição que defendem.)
(Processo: 6/2022; Licitação: 2/2022; Situação: Homologada > Inexigibilidade de Licitação | Processo 7/2022; Licitação: 3/2022; Situação: Aberta > Inexigibilidade de Licitação | Elemento: 33900000000000 – Aplicações Diretas ; Complemento do elemento: 33903926000000 – Serviços de Transporte Escolar | Portal da Transparência/Câmara Vereadores Pouso Redondo: https://camarapousoredondo.atende.net/?pg=transparencia#!/grupo/3/item/9/tipo/1)
Imagem de Capa: Fotomontagem/Alto Vale Agora
Fonte: Redação