O custo previsto para construir a nova ponte de concreto que vai ligar os bairros Budag e Canoas sobre o rio Itajaí do Oeste permitiria executar seis obras do mesmo porte, se comparado ao que foi gasto para fazer o Elevado Deputado José Thomé, em Rio do Sul (SC). O cálculo considera os índices inflacionários no período e os comprimentos das duas travessias.
Prevendo 125 metros de extensão, a obra recém-iniciada e seus acessos têm preço anunciado pela prefeitura de R$ 20,1 milhões.

Já o elevado, concluído em 2009, em valores atualizados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), custaria hoje cerca de R$ 20,2 milhões.
Mas preste atenção: a maior travessia do sistema viário do município mede 766 metros de extensão enquanto a nova ponte terá apenas um sexto desse comprimento.

Portanto, comparando os números, em tese, com a verba pública anunciada, a cidade poderia ganhar meia dúzia de travessias – e não somente uma.
Imagine a revolução que isso significaria para a mobilidade urbana de um município cortado por três importantes rios: Itajaí do Oeste, Itajaí do Sul e Itajaí-Açu.
Mas é uma pena. Afinal, isso não passará de uma… ‘miragem’.

Intrigante: muito mais curta; e cara?
Nossa equipe tentou entender o aparente disparate entre os valores das obras.
Como fontes, reunimos informações divulgadas pelo executivo municipal e dados do Portal da Transparência.

A plataforma revela que, sem os acessos, a ponte entre Budag e Canoas custará R$ 18,2 milhões, recursos de origem própria, federal, estadual e emendas parlamentares. Com os acessos e mais R$ 6,7 milhões conveniados com o governo estadual para obras complementares de drenagem e repavimentações no entorno, a conta chega a R$ 26,8 milhões.
Curiosamente, esse montante fica bem próximo do valor atualizado, também pelo INPC, de todo o projeto do elevado que, incluindo a remodelação do sistema viário, sobe para R$ 28 milhões.
Segundo o contrato com a Salver Construtora e Incorporadora Ltda, de Ituporanga (SC), o prazo de conclusão é de 18 meses, podendo ser estendido. Se receber aditivos, a obra poderá ficar ainda mais cara. O reajustamento de preços é permitido após o decurso de um ano de vigência contratual – pelo INPC.

Já a assessoria da prefeitura publicou: “A largura prevista é de 13,5 metros, com espaço para pedestres e ciclistas nas laterais”.
As características são semelhantes às da travessia do acesso Leste que foi inaugurada recentemente e do elevado, este com 12,5 metros, um pouco mais estreito.
Mas o executivo ressalta que “diferente da ponte de acesso Leste, entre o bairro Navegantes e Bremer, esta nova estrutura não terá pilares no rio.”
Pelas imagens divulgadas, a futura estrutura lembra a antiga Ponte dos Arcos, sobre o rio Itajaí do Sul, entre as ruas XV de Novembro e Rui Barbosa, perto da Fundação Cultural.

Questão de “arte”?
O valor do contrato da ponte em construção no acesso Oeste da cidade chama a atenção até mesmo quando comparado com o dinheiro gasto na travessia do acesso Leste.
A ponte Ingomar Bachmann, inaugurada no final de abril de 2022, custou R$ 13,9 milhões.
Situada bem na frente do portão da indústria do deputado Milton Hobus, padrinho político do atual prefeito José Thomé – ambos do PSD -, ela tem 192 metros.

Apesar dos 67 metros a mais – e seu custo final ter aumentado em R$ 3,7 milhões – o gasto ainda fica R$ 6,2 milhões abaixo do valor orçado para a ponte entre o Budag e o Canoas.
Lembrando que ambos os projetos de engenharia têm a mesma largura (13,5 metros) e os mesmos recursos (passagem para pedestres e ciclistas).
Por fim, considerando que a nova obra será 35% menor que a ponte Ingomar Bachmann e 84% mais curta que o elevado, restaria atribuir o espantoso contraste de preços da futura travessia ao seu formato?
O Portal da Transparência, no item “finalidade” do contrato, diz que se trata de uma “obra de arte especial”.
O espaço fica aberto à prefeitura para eventuais explicações.

(Atenção: As reportagens do Alto Vale Agora refletem o olhar que o cidadão pode ter das ações públicas a partir das informações disponibilizadas nos Portais da Transparência. O serviço é determinado por força de lei. As instituições públicas estão obrigadas a publicar, em meio eletrônico e em tempo real, os dados pormenorizados sobre aq execução orçamentária e financeira de suas receitas e despesas. Contratos e licitações, por exemplo, devem aparecer de forma clara e completa. Infelizmente, muitas vezes, a norma é desrespeitada. Ainda assim, nossa equipe deixa espaço aberto para as assessorias de imprensa que queiram esclarecer eventuais questões que lhes pareçam inconvenientes em textos referentes à instituição que defendem.)
(Contrato Superior: 128/2022; Licitação: 51/2022; Modalidade: Concorrência – “execução indireta, empreitada por Preço Unitário do tipo Menor Preço Global” | Contrato Superior: 45554/2021, operação de crédito com o BRDE – Ponte Acesso Leste | Diário Catarinense, 13 de setembro de 2009, pág. 36)
Fotomontagem de Capa: Alto Vale Agora