A prefeitura comemora os 74 anos de emancipação política do Município de Taió, no Alto Vale do Itajaí (SC), sem secretário em uma pasta que é vital para o andamento de qualquer governo, a Secretaria de Administração e Finanças.
Quem acompanha o mistério em torno da ‘cadeira vazia’ não tem nada para festejar. Muito pelo contrário, faz perguntas preocupantes.
Afinal, como a atual gestão consegue manter seu funcionamento sem comando no órgão que deve prestar assistência direta e crucial ao prefeito? Quem estaria fazendo o trabalho? Quem estaria assinando?
O enigma já dura cerca de dois meses, desde dezembro passado, quando o servidor Elves Johny Schreiber saiu da função para voltar ao seu cargo efetivo de contador, mudança envolvida em outra grande incógnita.

‘Supergratificado’: uma, duas, três… quatro bonificações
Até março de 2017, Elves Johny Schreiber era “contador – oficial de nível superior” na prefeitura taioense, com salário de R$ 4,2 mil.
Mas tudo mudou. Em abril daquele mesmo ano, ele se afasta dessa atividade ao ser nomeado Secretário de Administração e Finanças na gestão do então prefeito Almir Reni Guski (PSDB), que tinha Horst Alexandre Purnhagen (MDB) como vice.
Inicialmente, Elves passou a ganhar R$ 5,5 mil. Apenas uma “diferença de subsídio” aparecia na folha de pagamento dele.
Menos de meio ano depois de assumir o cargo, surge a primeira gratificação: “membro de comissão”. O valor extra elevou os ganhos iniciais para R$ 6,3 mil.
Entretanto, a grande guinada ocorre mesmo a partir do primeiro mês da atual gestão ‘Alexandre e Emerson’, em janeiro de 2021.
Mantido como secretário, Schreiber passa a receber duas, e, mais recentemente, três gratificações. Além de “membro de comissão [R$ 1,3 mil]”, a linha do tempo vai trazendo: “gratificação 10% (tarefa especial) [R$ 1,4 mil]” e “gratificação 20% (tarefa especial) [R$ 1,2 mil]”.
A remuneração bruta já alcançava R$ 11,1 mil em novembro passado, mês que, oficialmente, marca a reta final do comando dele na secretaria.
Mas é em dezembro que a ‘mágica’ acontece. Na transição da volta ao antigo cargo, as gratificações do último demonstrativo de pagamento como secretário ‘saltam’ para o contracheque de contador e, nele, eis que raia o quarto ‘extra’: “função gratificada [R$ 1,4 mil]”, também amparada em lei – assim como as demais.
Aliás, o servidor teve dois recibos de vencimentos no mês do Natal. Um deles no valor de R$ 26,4 mil detalhando a fartura da rescisão contratual de secretário e mais de uma dezena de itens que incluem gratificações e as vantagens que incidem sobre tais benefícios, além do décimo terceiro. O segundo contracheque pagou mais R$ 10,5 mil com os direitos na função de contador. Assim, o rendimento mensal bruto somado atingiu R$ 36,9 mil.


O que chama a atenção é que, no mês passado, janeiro de 2023, Elves Johny Schreiber, como contador, manteve as quatro bonificações, permanecendo com o salário ‘turbinado’ em R$ 11,7 mil – como se ainda fosse o secretário.

A título de comparação, atualmente, as remunerações de duas outras contadoras da prefeitura de Taió são de R$ 8,9 mil e R$ 6 mil. Uma tem “adicional noturno” e “horas extras” – mas nenhuma delas recebe qualquer gratificação.


“Lamentável”
O vereador Eder Ceola (Podemos) lamenta a gravidade da situação. Segundo ele, o Município não poderia ficar sem uma pessoa em um cargo tão relevante para o funcionamento da administração pública.
A Câmara Municipal não recebeu nenhuma publicação mostrando que, nos bastidores, Schreiber seguiria executando o papel de secretário de Administração e Fazenda da prefeitura de Taió.
Em texto de aplicativo de mensagem, uma fonte de dentro do executivo confirmou à equipe do Alto Vale Agora que “ele [Elves] saiu de secretário e foi para diretor de contabilidade”. Questionado sobre o valor salarial, o nosso informante respondeu: “ele participa de ‘bastante comissão’ [sic] por ser o responsável pela secretaria”.

Oficialmente, Elves Johny Schreiber não responde mais pela Administração e Finanças e não assina documento algum do governo Alexandre nessa pasta.
Entretanto, Eder Ceola quer saber se houve alguma manobra para manter os ganhos mensais do ex-secretário em dobro. Além disso, o vereador tenta apurar se o próprio prefeito estaria sendo conivente com a situação do servidor público.

Com um departamento de comunicação fechado à mídia independente, também não se sabe o que se passa na cabeça de Horst Alexandre Purnhagen – que deve explicações à sociedade.
Democraticamente, o espaço está aberto para eventuais esclarecimentos dos citados nesta reportagem.
(Portal da Transparência/Prefeitura de Taió | Funcionário: Elves Johny Schreiber, n. 111949 | LEI 3975/2017; LC. 229/19; LC. 170/2012)
