Transtornos, riscos, meias-verdades e atrasos marcam os dois anos de interdição de uma ponte pênsil que aguarda o cumprimento da promessa de obras de reforma entre os bairros Barragem e Pamplona, em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí (SC).
Fruto amargo da aparente, se não flagrante, incompetência administrativa, a estrutura foi fechada para a passagem de carros por determinação da prefeitura no dia 6 de abril de 2021 – “por tempo indeterminado”.

Travessia interditada pela prefeitura – ainda sem data para reabrir. (Foto: Alto Vale Agora)
De lá pra cá, a situação de abandono – que até parece de propósito – passou a representar perigo real para pedestres, ciclistas e motociclistas, ainda autorizados a atravessar pelo assoalho que une as margens do rio Itajaí do Oeste.
Obrigados a usar a estrutura para cortar caminho, os trabalhadores sujeitos à ‘aventura’, enfrentam o piso que já apresenta falta de pranchas de madeira, ou a podridão delas.
Por conta dos buracos, em alguns pontos, até dá para ver o rio abaixo dos pés.
Sem a necessária manutenção, cabeças de pregos expostas desafiam a resistência de calçados e pneus.
O gradil também exige reparos; que nunca chegam.


Descaso: nível de abandono da ponte assusta e oferece riscos a transeuntes. (Fotos: Alto Vale Agora)
Grave
A situação vexatória espalha o problema para o entorno.
É que a ponte pênsil é uma rota alternativa importante para desafogar o trânsito na região oeste da cidade.
Por causa da interdição, que há 24 meses bloqueou a passagem de automóveis para a BR-470, os congestionamentos acabaram se intensificando pelas outras vias do lado direito do rio em direção à área central de Rio do Sul.

Engarrafamentos na região pioraram com ponte pênsil fechada em 2021. (Foto: Alto Vale Agora/Arquivo)
O transtorno castiga a vida dos motoristas nos momentos de maior tráfego, principalmente pela manhã, hora de ir para o serviço.
Entretanto, nada disso parece sensibilizar o poder público municipal.

À direita, prefeito Thomé, que não precisa usar caminho mais congestionado após interdição de ponte pênsil. (Fotomontagem: Alto Vale Agora/Arquivo)
Descumprimento
Ainda no ano passado, o portal Alto Vale Agora procurou a assessoria de imprensa do prefeito José Thomé (PSD), político que já recebeu aplausos por prêmio de “prefeito empreendedor”.
Um funcionário infomou que o processo licitatório para reformar a ponte pênsil seria lançado em novembro de 2022 – somente um ano e sete meses após o trancamento.
Como mostra a realidade, na prática, o plano não se tornou verdade até o momento.
Na quarta-feira, dia 5 de abril, véspera do segundo aniversário da interdição, nossa equipe visitou o local, mas não avistou nenhum operário por lá.
Do ano passado até agora, observamos que a única coisa que mudou foi a colocação de tapumes nas entradas de acesso ao piso, em ambos os lados, com aberturas que restringem ainda mais o espaço para passar.
Já nas cabeceiras, os tubos de concreto continuam formando barreiras para impedir a travessia de carros.

Acesso à ponte está ainda mais limitado. (Fotomontagem: Alto Vale Agora)
R$ 311,6 mil: contrato sem obras
Como não vimos as obras prometidas, buscamos informações no Portal da Transparência da prefeitura.
A plataforma pública traz detalhes da “contratação de empresa para fornecimento de materiais e mão de obra para manutenção de ponte pênsil – Bairro Barragem – Rio do Sul/SC”. A data da assinatura é 30 de novembro de 2022.
Na modalidade de dispensa de licitação, o valor inicial do acordo, do tipo “menor preço global”, tem uma cifra que chama a atenção: R$ 311.687,52.
Já no dia 1º de janeiro deste ano há registro de uma “apostila” com a fornecedora, a “Construrio Empreiteira de Mão de Obra Ltda”, sediada no próprio município.
A aba “anexos” repete o contrato. O documento estabelece que “o prazo máximo para fornecimento de materiais e execução dos serviços e obras será de até 120 (cento e vinte) dias a contar do recebimento da ordem de serviço”, ou seja, quatro meses. Não localizamos através do Portal se a ordem foi emitida.
Por outro lado, a vigência contratual é de “180 (cento e oitenta) dias, a contar da assinatura”.
Quer dizer, o negócio perderá sua validade já no mês que vem, em 29 de maio.
Mas, até agora, dois anos depois do trancamento, ainda nada de reforma da ponte pênsil entre os bairros Barragem e Pamplona.
Por conta do atraso e do mistério, deixamos o espaço aberto para a prefeitura rio-sulense prestar eventuais explicações à sociedade.

Símbolo do desleixo da administração pública da ‘capital do Alto Vale’. (Foto: Alto Vale Agora)
(Contrato Superior: 278/2022; Processo: 200/2022; Modalidade: Dispensa de Licitação; Tipo: Menor Preço Global. Contrato Aditivo: 278A/2023)