- A informação que gera opinião!

GRAVE: Regionalizado, aeroporto vira pista de corrida de carro, deixa dois mortos e pode ser interditado em Lontras

Acesso de veículo particular à área interna do campo de aviação, palco de tragédia neste fim de semana, revela amadorismo do consórcio implantado por prefeito...

Por Redação

29 de maio de 2023

às 06:42

Compartilhe

Ao invés de ficar limitado ao papel de salvar vidas de pacientes – como prometeu o prefeito rio-sulense José Thomé (PSD) há quase um ano quando convenceu os demais gestores da região a aprovarem a criação do consórcio do Aeroporto Regional Alto Vale e a repassarem todo mês dinheiro público ao projeto –, o Helmuth Baumgarten, em Lontras (SC), deu lugar à morte de dois homens neste final de semana.

Palco do amadorismo da proposta de regionalização, que até agora serve para uma pequena elite, e sem regras firmes de segurança de restrição de acesso, o aeródromo, inacreditavelmente, virou pista de corrida de carro na noite do último sábado (27), por volta das 20h.

De acordo com informações que os bombeiros colheram de testemunhas, um veículo sedã Jetta, de cor preta, com motorista e passageiro a bordo,  disparou pelo asfalto – destinado ao pouso e à decolagem de aeronaves – em alta velocidade.

O motorista, “chutado”, não conseguiu frear, possivelmente, surpreendido pelo fim do asfalto. 

Numa sequência cinematográfica descrita, o carro saltou ao atingir um barranco de dois metros perto da cabeceira, furou a cerca de arame farpado do aeroporto, rampou por cima de uma estrada de chão, ‘voou’ abaixo na ribanceira, na qual ainda rebateu, e foi cair dentro do rio Itajaí-Açu, onde ficou submerso, aproximadamente 10 metros longe da margem.

Automóvel ‘voou’ dentro do rio após ultrapassar fim da pista asfáltica destinada a aeronaves. (Captura de Tela: Google Maps)

Surreal: festa dentro do Aeroporto Regional

O chefe de socorro dos Bombeiros Voluntários de Lontras (CBVL), Ivan Luiz Hesmann, conta que populares só foram perceber a falta de ambos uns 15 minutos depois do acidente, momento em que o resgate foi acionado.

“Eles viram as luzes traseiras, vermelhas, ainda acesas dentro do rio”, relata Hesmann. As lâmpadas apagaram logo depois que ele chegou ao local.

Carro afundou no rio com motorista e passageiro. (Foto: Reprodução/CBVL/Redes Sociais)

A localização do veículo foi indicada aos mergulhadores do Corpo de Bombeiros Voluntários de Ibirama (CBVI), corporação da cidade vizinha, assim que eles vieram para prestar apoio à operação.

Com a ajuda de um guincho que já estava na beira do rio, o automóvel foi içado para a margem, cerca de uma hora e meia após o acidente.

Bombeiros Voluntários de Lontras e Ibirama participaram dos trabalhos de resgate. (Foto: Divulgação/CBVL/Redes Sociais)

O Jetta estava trancado. Primeiro, os corpos das vítimas foram retirados.

O “empresário” Bruno Bittencourt Dalfovo, de 40 anos, no assento do passageiro, e o advogado Daniel Beringhs Kirchner, de 42, caído no banco de trás, não estavam presos aos cintos de segurança, conforme o socorrista.

“Não havia mais como fazer a reanimação”, lamentou Ivan. Sem vida, foram removidos pelo Instituto-Geral de Perícias (IGP).

O cabo que sustentava o carro acabou se rompendo, e o sedã voltou a cair no rio, sendo puxado totalmente para fora da água em seguida.

Os trabalhos terminaram apenas por volta da meia-noite.

O serviço mobilizou 17 bombeiros de Lontras, quatro de Ibirama e outros quatro socorristas, além de exigir botes, dois caminhões e o guincho.

A Polícia Militar também esteve na cena do acidente. Já a Polícia Civil deverá investigar.

Após corrida na pista do aeroporto, veículo caiu no rio e ficou destruído. (Fotos: Reprodução/Redes Sociais)

Ivan Hesmann acrescentou que, por causa do jeito que os corpos ficaram dentro do Jetta, ficou difícil concluir qual dos dois dirigia. Mas acredita-se que era Daniel, o dono do carro.

Somente o laudo do médico legista poderá determinar se a causa das mortes foi por “trauma ou afogamento”; e se houve ingestão de bebida alcoólica.

Antes da tragédia, as vítimas, com um grupo, teriam comemorado, dentro do aeródromo, o “lucro bom” de um evento de amantes da aviação realizado no sábado anterior no Helmuth Baumgarten.

A possibilidade de um racha, suspeita comentada nas redes sociais, em princípio, foi descartada.

Daniel era advogado e, segundo os bombeiros, presidente do Aeroclube de Planadores de Rio do Sul, sediado dentro do Aeroporto Regional Alto Vale, sob responsabilidade administrativa da prefeitura rio-sulense.

Perfis das vítimas na internet. (Fotomontagem: Reprodução/Redes Sociais)

Desmando chocante

Um informante relatou algo grave ao portal Alto Vale Agora: “Como eles é que mandam por lá, eles têm acesso de carro para a parte interna do aeroporto”, revela o denunciante que terá o direito ao sigilo de fonte preservado.

Cabe ressaltar que a irregularidade somente veio à tona por conta do acidente.

Em meados do ano passado – após falhas, diversos aditivos e gastos dobrados de 1,4 milhão –, a prefeitura de Rio do Sul anunciava que o aeroporto obtinha autorização para operar voos noturnos.

Justamente neste período, no final desta semana, um carro corria pela pista destinada a aviões e vinculada ao programa do consórcio regionalizado, rumo ao fim trágico.

Os bombeiros disseram que, no momento em que o motorista invadiu o asfalto, não havia movimentação de saída ou aproximação de aeronaves, o que afastou risco de choque com o veículo e uma desgraça ainda maior.

Desde sua criação, proposta por José Thomé (4º da esquerda para a direita), consórcio recebe verbas de todos os municípios da região. (Foto: Divulgação/Arquivo)

Na segunda-feira (22), a reportagem do Alto Vale Agora encaminhou perguntas sobre os resultados alcançados com o consórcio do Aeroporto Regional à assessoria de imprensa da Associação dos Municípios do Alto Vale do Itajaí (Amavi), da qual o prefeito José Thomé é presidente atualmente.

Correspondendo à tradicional demora da instituição, até o momento, não recebemos nenhuma resposta. 

Em março de 2022 noticiamos: “Com pretexto enganoso, prefeitos ligados à Amavi decidem bancar ‘Aero-Sem’ em Lontras sem aval de vereadores”.

O Helmuth Baumgarten sempre foi visto pela comunidade como um aeródromo usado por uma pequena casta de gente rica para satisfação de seus desejos, aventuras e caprichos particulares.

Mas, entre os muitos custos bancados com dinheiro público, também já foram gastos outros “R$ 193.487,34”. A soma está relacionada com a “contratação de empresa para prestação de serviços continuados com dedicação exclusiva de mão de obra de vigilante patrimonial nas dependências do aeroporto”, de acordo com o Portal da Transparência.

Agora, com uma festa ocorrida lá dentro e um veículo veloz que, sem asas, ‘voou’ para o fundo do rio – lamentavelmente, matando duas pessoas –, a administração pública rio-sulense terá muito o que explicar: aos demais gestores contribuintes do consórcio e aos cidadãos, de cujos bolsos saem os recursos repassados mensalmente.

Mas a preocupação vai além. Após ter virado pista de corrida de carro, poderia o Aeroporto Regional até mesmo acabar perdendo a autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)?

Democraticamente, nosso espaço está aberto para eventual manifestação do executivo municipal de Rio do Sul e de todos os gestores envolvidos, indiretamente, no caso estarrecedor.

(Foto: Reprodução/Redes Sociais)

———————————-

Seja um apoiador da verdade: O projeto de jornalismo independente, investigativo e ético do portal Alto Vale Agora não recebe nenhum tipo de verba pública na sua luta em busca da verdade e da moralização da política regional. Se você quer contribuir para a sobrevivência desta produção de notícias exclusivas, que jamais vão aparecer na mídia comercial, seja um apoiador! Faça um PIX de qualquer valor que desejar. Utilize a chave: 05.943.114/0001-99. Contamos com seu apoio para permanecer no ar. Nossa equipe agradece a sua colaboração!

————————————

Últimas notícias

Pela 3a vez em menos de um mês, no mesmo veiculo.
O efetivo ordinário será reforçado com policiais da área administrativa
Convênio garante a manutenção de serviço de patrulhamento ostensivo motorizado